sábado, 22 de maio de 2010
Bryher
Elizabeth Bishop
Elizabeth Bishop nasceu em 8 de fevereiro de 1911 em Worcester, Massachusetts, nos Estados Unidos. Morreu em 6 de outubro de 1979. É considerada um das mais importantes poetas do século XX a escrever na língua inglesa.
Biografia
O pai, William Thomas Bishop morreu antes de ter ela um ano e a mãe, Gertrude Bulmer Bishop, que sofria dos nervos, foi confinada a um asilo mental quando Elizabeth mal tinha cinco anos. A família materna a levou para viver em Great Village na Nova Escócia, Canadá. Sua mãe ficou no asilo até morrer em 1934 mas Elizabeth nunca mais a veria. Guardou de sua vida inicial no Canadá lembranças enternecidas e escreveria sobre sua infância de modo idealizado.
Foi mais tarde educada pela família do pai em Worcester e Boston. Viveu nove meses infelizes com os avôs paternos em Boston, como se vê em The Country House, começando a sofrer de asma e de eczema, a primeira de suas numerosas alergias. Viveu na França na década de 1920, graças a sua colega em Vassar e amante Louise Crane, herdeira da famosa indústria de papel. Estudaria em Vassar durante quatro anos - entrou em 1929, bem no ano da quebra de Wall Street.
Conheceu a grande poetisa Marianne Moore, 24 anos mais velha, de quem se tornou muito amiga. Seus primeiros poemas, muito influenciados por George Herbert, Gerard Manley Hopkins e Moore, surgiram na revista de Vassar College, que ajudou a fundar com Mary McCarthy, escritora um ano mais velha, Margaret Miller e duas irmãs Clark, e que se intitulava Con Spirito. Influenciada por Moore, abandonou a intenção de se tornar médica e se dedicou à poesia. Sua educação excelente era financiada por dinheiro aplicado pelo pai, que ia entretanto diminuindo com a inflação.
Carreira
Residiu em Nova Iorque por um ano, escrevendo poemas mais amadurecidos, entre eles The Map e The Man-Moth. Viveu depois intermitentemente na Europa por três anos, depois de comprar uma casa em Key West, Florida, em 1938. Depois de rejeições por alguns editores, o primeiro de seus volumes de poesia («North and South») apareceu em 1946. No ano seguinte conheceu Robert Lowell, de quem se tornou amiga durante o resto da vida.
Marianne Moore demonstrou grande interesse por seus trabalhos. Quatro anos se passara antes que Elizabeth começasse a chamá-la nas cartas Cara Marianne e a pedido de Moore! A amizade entre ambas, que perdura na extensa corresponência, durou até a morte de Moore em 1972. Em 1946, Moore sugeriu seu nome para o Houghton Mifflin Prize (prêmio de poesia) e ela venceu. Quando da publicação de North and South, o mais importante crítico de então na América, Randall Jarrell, escreveu que «all her poems have written underneath, I have seen it" ou seja, «todos seus poemas, como percebi, tem uma segunda escrita».
No Brasil
Bishop, que a vida toda teria dificuldades para sustentar sua carreira, dependia bastante de doações, empréstimos, prêmios e outros incentivos universitários. Em 1951, ao receber 2,500 dólares norte-americanos do Bryn Mawr College (importância então considerável) pode decidir-se a navegar ao redor da América do Sul. Chegou a Santos em Novembro, esperando ficar duas semanas, para desfrutar da paisagem numa curta pausa de sua semanas em sua longa viagem, mas sua estada se estendeu por mais de vinte anos.
O Brasil marcou sua vida como temática de numerosos poemas, contos e cartas, e, como afirma a obra «Brasiliana da Biblioteca Nacional», de 2001, em sua página 107, «como vivência afetiva, pautada sobretudo pela longa relação amorosa com Lota de Macedo Soares.» Tal amizade lhe daria estabilidade e amor e estabeleceu residência no Rio de Janeiro, depois nos arredores, em Petrópolis e mais tarde em Ouro Preto.
Diz a mesma obra: «Representante ilustre da poesia moderna norte-americana, Bishop residiu no Brasil como estrangeira voluntariamente exilada de seu país, mas profundamente conectada com o movimento cultural norte-americano», principalmente com o poeta Robert Loewe e com sua mentora Marianne Moore. (....) «Traduziu poemas dos principais expoentes do modernismo brasileiro e manteve relações cordiais com vários desses artistas.»
Chegou no último governo Vargas, documentou o suicídio do presidente, viu a ascensão de JK e a queda de Jango Goulart. Endossava as opiniões de sua namorada Lota, paisagista e amiga de Carlos Lacerda, partidária de posições udenistas. Com simpatias pelo partido democrático nos Estados Unidos, críticas ao sistema de segregação racial norte-americano, assumiu no Brasil uma posição antiesquerdista. Mas a verdade é que a política jamais foi tema de interesse central para ela. Sua percepção das contradições brasileiras é sutil e perspicaz em poemas sobre a paisagem de Santarém, por exemplo, na evocação das chuvas tropicais, na sátira social explícita (poema Pink Dog, por exemplo) no retrato dos pobres urbanos.
Retorno aos Estados Unidos
Vendendo a casa de Ouro Preto após o suicídio de Lota, no início da década de 1970 retornou defitinivamente aos Estados Unidos.
Enquanto vivia no Brasil, em 1956 recebeu o prêmio Pulitzer pelo livro «North & South — A Cold Spring». Receberia mais tarde o Prêmio Nacional do Livro (the National Book Award) e o prêmio nacional do círculo dos Críticos literários (the National Book Critics Circle Award) assim como duas bolsas Guggenheim e uma da Ingram Merrill Foundation. Tornou-se poeta residente na Universidade de Harvard em 1969. Começou em 1971 uma amizade íntima com Alice Methfessel que duraria até sua morte em 1979.
Em 1976, foi a primeira mulher a receber o International Neustadt Prize for Literature (prêmio internacional Neustadt de Literatura) e continua sendo o único americano a recebê-lo.
Escreveu muito para a revista The New Yorker, e em 1964 escreveu o obituário de Flannery O'Connor para a The New York Review of Books. Fazia muitas conferências, e durante uns poucos anos ensinou na Universidade de Washington, antes de se mudar para Harvard por sete anos. Ensinou ainda na New York University, antes de terminar seus dias de ensino no Massachusetts Institute of Technology.
Gastava meses, por vezes anos, escrevendo um poema apenas, trabalhando para obter um sentido de espontaneidade. Apaixonada pela exatidão, recriou os mundos do Canadá, América, Europa e Brasil. Não admitia ter pena de si mesma, mas seus poemas mal escondem todas as dificuldades como mulher, como lésbica, como órfã, como viajante sem raízes, ou asmática frequentemente hospitalizada, mulher que sofria de depressão e por vezes alcoolismo.
"I'm not interested in big-scale work as such," disse uma vez a Lowell. "Something needn't be large to be good." O que simplesmente quer dizer que não estava intressada por trabalho em larga escala, por não acreditar que algo precisasse ser grande para ser bom…
Gladys Bentley
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Berenice Abbott
Berenice Abbott
Berenice Abbott (1898-1991), fotógrafa americana, célebre por sua obra documentária sobre New York.
Nascida em Springfield, estado de Ohio em 1898, quando adolescente mudou-se para Nova Iorque onde se juntou a uma das trupes de teatro mais modernas da cidade; o Provincetown Players. Este erá um grupo de vanguarda que revelou escritores famosos como Eugene O`Neill e Djuna Barnes. Logo veio a se tornar mais uma entre os moradores do Greenwich Village, bairro este adotado por muitos artistas da época.
Em 1921 como muitos outros artistas que viviam no Village, Berenice Abbott mudou-se para Paris com a intenção de começar uma vida nova e estudar escultura. Em Paris realmente começou uma vida nova sendo assistente de Man Ray, que também fora morador do Village que lhe ensinou tudo sobre fotografia. Logo Berenice Abbott se revelou uma grande retratista sendo cada vez mais solicitada por boa parte da intelectualidade francesa da época.
Em Paris conheceu uma de suas maiores influencias fotograficas, o fotografo francês Eugene Atget que por vinte anos produziu oito mil fotos que registraram a cultura, arquitetura e monumentos da capital Francesa.
Inspirada pelo trabalho realizado por Eugene Atget, Berenice Abbott voltou os Estados Unidos da America e fez algo semelhante ao que ele fez em Paris, só que em Nova Iorque. Daí nascia o seu trabalho mais conhecido; o Changing New York, onde ela mostra a cidade velha dando lugar a modernidade dos arranha-céus, vias expressas e pontes de metal que modificavam gradativamente a paisagem urbana.
Outro de seus trabalhos reconhecidos foi a documentação fotografica da rota que vai do Maine a Florida. Como se não bastasse, Berenice foi a primeira mulher a ser admitida na Academia Americana de Artes e Letras.
Berenice no fim de sua vida contraiu um efisema pulmonar que foi fruto de muitos anos respirando produtos químicos para revelar filmes e fotografando Nova Iorque do alto de seus arranha-céus ao relento.
Berenice Abbott morreu em 1991 aos seus 93 anos.
Jean Acker
Jean Acker (23 de outubro, 1893 – 16 de agosto, 1978) foi uma atriz norte-americana.
Nasceu Harriet Acker, em Trenton, Nova Jersey. Mudou-se para á California em 1919.[1] Quando chegou em Hollywood Jean tornou-se amante de Alla Nazimona, uma atriz de cinema cuja influência e contatos que permitiram Acker a negociar um contrato de $200,00 por semana com um estúdio de cinema.
Jean Acker apareceu em vários filmes nas décadas de 1910 e 1920. No ínico da década de 1930 começou a aparecer em pequenos papéis principalmente não creditados. Fez sua última aparição na televisão em 1955 no filme How to Be Very, Very Popular, Betty Grable lado oposto.
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Morte
Após o divórcio em 1923, conheceu Chloe Carter mulher com que ficaria ao resto de sua vida. O casal iria construir juntos um apartamento em Bervely Hills Jean morreu de causas naturais em 1978, com 84 Anos de idade Foi enterrada ao lado de Carter, no Cemitério Santa Cruz em Culver City, California.
Filmografia
Ano Título Personagem
- 1915 Você é um maçom?
- 1922 Seu próprio dinheiro Ruth Alden
- 1923 A mulher nas correntes Felicia Coudret
- 1927 O ninho Belle Madison
- 1933 Nenhuns laços da união Adrienne's Maid
- 1934 Senhorita Fane o bebê é roubado Amiga da senhora Fane
- 1935 Não mais senhoras Nightclub Extra
- 1936 São Francisco
- 1937 Modas de 1938 Extra
- 1939 As boas meninas vão a Paris Bit Part
- 1940 Minha esposa favorita Postponed case witness
- 1942 Senhora nova amável Cousin
- 1944 O homem fino vai para casa Tart
- 1945 Fascinado Matron
- 1947 O perigo de Pauline Switchboard operator
- 1948 Ele é Romântico? Townswoman
- 1951 A estação de acoplamento Party guest
- 1952 Algo para Viver Esposa
- 1955 Como ser muito, muito popular
Jane Addams
Jane Addams (Cedarville, 6 de Setembro de 1860 — Chicago, 21 de Maio de 1935) foi uma socióloga e filósofa estadunidense.
Filantropa e doutrinadora norte-americana, considerada pelo presidente Theodore Roosevelt como «a cidadã mais útil dos Estados Unidos». O seu pai já revelava um grande espírito humanitário, defendendo a abolição da escravatura. Jane pretendia ser médica mas possuiria uma constituição muito débil, o que a levou a desistir de tal propósito. Porém, numa viagem a Londres, terá feito uma visita aos Serviços Sociais da capital inglesa e sentiu nascer em si uma nova vocação. Ao regressar a Chicago, tornou-se uma fervorosa defensora da paz e da justiça social, razão pela qual resolveu criar instituições que protegessem os imigrantes e os trabalhadores de todas as raças. Com a sua amiga Helena Gates Starr, ter-se-à instalado num barracão, o qual limparam e arranjaram de forma a albergar um serviço de assistência social que ficou conhecido como Hull House. Este foi inaugurado em 1889 e Jane foi, até à sua morte, sua chefe - residente.
No Hull House foram instalados jardins de infância, uma agência de emprego, oficinas, campos de recreação, biblioteca, escola de música e de aulas de artesanato, clubes, entre outras coisas. Desenvolveu ainda uma frutuosa acção no campo das leis, tendo auxiliado à promulgação da lei de protecção ao trabalho de menores e de mulheres, assim como procurando leis que promovessem maior segurança no local de trabalho, como por exemplo as fábricas.
Defensora do sufrágio feminino, Jane revelou-se uma pacifista e uma mulher desapegada dos bens materiais. Apenas ocupou um lugar remunerado, o de inspectora municipal de limpeza urbana. Todos os demais não eram remunerados. Fundou a Associação para o Avanço dos Povos de Cor, e tomou parte na Conferência Feminina Internacional da Paz. Foi escritora e conferencista, sempre em temas humanitários. Em 1931 foi-lhe conferido o Nobel da Paz.
domingo, 2 de maio de 2010
Audre Lorde
Audre Geraldine Lorde também conhecida como Gamba Adisa foi aclamada pela crítica como novelista, poetisa e ensaísta. Foi uma dessas poetisas feministas contemporâneas como Sylvia Plath e Adrienne Rich, que expressam a sua feminilidade através da poesia. Ela nasceu em 1924 no Harlem e seus pais eram imigrantes de Granada no Caribe. Audre Lorde foi ativista e deu voz a questões de raça, gênero e sexualidade. Formou-se no Hunter College e na Univerisade de Columbia (1961). Em 1962, ela casou com Edward Rollins, um advogado. Eles tiveram dois filhos, mas se divorciaram em 1970.
Enquanto continuava os estudos, trabalhou em diversos ramos, em fábricas, como assistente social e técnica de raios-X. Sua descoberta como lésbica foi com uma colega de trabalho de uma fábrica em Connecticut. Frequentou a Universidade Nacional do México por um ano, período de afirmação e de renovação: ela confirmou sua identidade pessoal e artística, como lésbica e poeta. Após seu retorno para Nova Iorque começou a freqüentar o cenário de Greenwich Village, era a única mulher negra nos bares. Trabalhou como bibliotecária, continuou escrevendo e se tornou uma participante ativa na cultura gay, dos direitos civis, anti-guerra e movimentos feministas. Seu primeiro livro de poemas, ‘The First Cities’, foi publicado em 1968. Época em que fez residência no Colégio no Mississippi e conheceu Francisca Clayton, uma professora branca de psicologia. Desse momento em diante, ela e Francisca, compartilharam suas vidas juntas. Com a publicação da sua segunda obra, ‘Cable to Rage’ de 1970, se envolveu com Gloria José, sua companheira até a sua morte em 1992, após 14 anos de uma luta contra um câncer de mama. Além de poeta, Audre Lorde, foi uma poderosa ensaísta e escritora.
Mulher
(Audre Lorde)
Sonho com um lugar entre os seus seios
para construir a minha casa como um refúgio
onde semeio em seu corpo
uma infinita colheita
onde a rocha mais comum
é a pedra da lua de opala e ébano
que dá leite a todos os meus desejos
e sua noite cai em mim
como uma chuva que nutre.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Ser Lésbica
Uma lésbica é a fúria de todas as mulheres condensada até ao ponto de explosão. Ela é a mulher que, muitas vezes numa idade muito jovem, começa a atuar de acordo com a sua necessidade compulsiva de ser um ser humano mais completo e livre que - talvez então mas certamente mais tarde - a sociedade onde vive a deixa ser. Estas necessidades e ações ao longo dos anos, conduzem-na a um conflito doloroso com as pessoas, situações, formas aceitáveis de pensar, de sentir e de comportamento, até se encontrar num estado de guerra permanente com tudo à sua volta e geralmente também com ela própria.
Pode não estar totalmente consciente das implicações políticas do que para ela começou como necessidade pessoal, mas num dado plano não foi capaz de aceitar as limitações e a opressão imposta pelo papel mais básico da sua sociedade - o papel de mulher. O turbilhão que ela sente, tende a induzir uma culpa proporcional ao grau em que ela sente não estar de acordo com as expectativas sociais, e/ou eventualmente conduzí-la ao questionar e à análise do que o resto da sua sociedade mais ou menos aceita. Ela é forçada a desenvolver o seu próprio padrão de vida, muitas vezes vivendo grande parte da sua vida sozinha, aprendendo geralmente mais cedo que as suas irmãs heterossexuais acerca da solidão essencial da vida (que o mito do casamento esconde) e acerca da realidade das ilusões.
Enquanto não conseguir expelir a pesada socialização que implica o ser mulher, nunca conseguirá estar em paz consigo própria. Porque ela se encontra entre a aceitação da visão que a sociedade tem dela - e nesse caso não se aceita a ela própria - e a compreensão do que esta sociedade sexista fez por ela e porque é funcional e necessário fazê-lo. Aquelas que entre nós que meditamos e tiramos conclusões sobre isso, encontramo-nos do outro lado de uma viagem tortuosa através da noite que pode ter durado décadas. A perspectiva que se ganha dessa viagem, a libertação interior do nosso ser, a paz interior, o amor real por nós próprias e por todas as mulheres, é algo a ser compartilhado com todas as mulheres - porque somos todas mulheres.
Ao longo da História muitas mulheres famosas admitiram serem lésbicas. O conceito da orientação sexual modificou-se muito com o tempo. Sem tratar as relações lésbicas abertamente, na metade do século XVIII, a 'amizade romântica' entre mulheres põe-se na moda na literatura inglesa, quanto ao exemplo da relação entre as 'Senhoras de Llangollen', Eleanor Butler e Sarah Ponsonby, ou a amizade romântica de Sarah Scott, Elizabeth Carter e Catherine Talbot, Anna Seward e Honora Sneyd, ou Mary Wollstonecraft e Fanny Blood.
Durante o século XX mulheres famosas não escondiam que eram lésbicas ou bissexuais, como Vita Sackville-West, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Marguerite Yourcenar, Janis Joplin, Martina Navratilova, Susan Sontag e Annie Leibowitz, Amelie Mauresmo, etc. Embora esses sejam exemplos de mulheres que tiveram a voz na sociedade do seu tempo, milhões de lésbicas anônimas fizeram das suas vidas um exemplo que nunca saberemos.
'Alguém, creio, se lembrará de nós no futuro.'
(Safo - 640 a.c.)
Mulheres nas Olimpíadas:
No passado, para muitas atletas femininas, as semanas que antecediam as olimpíadas costumavam ser um período de terror. Estas mulheres não estavam preocupadas em ganhar as medalhas olímpicas, o que as aterrorizavam era caírem no teste de feminilidade, e serem expostas ao mundo como um homem. Escândalos olímpicos foram usados nesse sentido.

Isso começou nos jogos de Berlim em 1936, na era de Hitler, quando a americana Helen Stephens bateu a fabulosa Stella Wash para vencer os 100m, e foi categoricamente acusada de ser um homem. Os médicos germânicos inspecionaram os genitais de Helen e concluíram que ela era uma mulher. Isto pôs fim ao debate, mesmo com crenças de que outras corredoras corriam como homens. Nos anos 80, Stella Wash foi morta durante um roubo e a autópsia mostrou que era ela que tinha genitais masculinos.
Nos anos 60, quando a cobertura televisiva das olimpíadas começou, expectadores viram mulheres ganharem medalhas olímpicas, atletas que acreditavam serem homens. Em 1966 os testes de sexo foram introduzidos: atletas femininas eram postas nuas e submetidas a exames ginecológicos. Mais humilhantes foram os testes que em 1968 o ‘Comitê Olímpico Internacional’ tentou introduzir para substituir aos exames ginecológicos, uma verificação para saber se cada competidora possuía os dois XX cromossomos.
Os testes de gênero foram perdendo credibilidade. Uma corredora tcheca, de 1930, chamada Zend Koubrova sofreu horrores por ver uma fotografia de seus genitais ambíguos publicados. Ela retornou para sua casa e assim permaneceu reclusa por anos. A polonesa Eva Kobkowsca foi banida dos eventos femininos em 1967 por ter cromossomos XXY, porém nada foi provado.
O judô brasileiro enfrentou em 1996 a polêmica em torno de Edinanci Silva. O vôlei entrou no tema em 1997, com Érika Coimbra. Os dois casos, porém, estão distantes da transexualidade. Elas nasceram mulheres, mas tiveram a sexualidade contestada porque apresentavam características de ambos os sexos, excesso de hormônio masculino e precisaram passar por cirurgias reparadoras para competirem como mulheres.

A atacante brasileira Érika, jogadora da seleção brasileira foi submetida ao exame durante o mundial juvenil, em setembro de 1997, e teve o resultado positivo. Érika tinha uma má formação dos órgãos reprodutores e teve de ser submetida a uma cirurgia e a tratamento hormonal. Na época, o mexicano Ruben Acosta, presidente da 'Federação Internacional de Voleibol' foi duro: obrigou o Brasil a tirar Érika da competição, sob a ameaça de a equipe ser eliminada do torneio. Acosta afirmou que a sua entidade não seguirá a medida anunciada pelo COI: de abrir as portas das competições para as transexuais. Para Acosta permitir a presença de mulheres transexuais em torneios de vôlei são abusos humanos. O mexicano foi acusado de corrupção e investigado pela Justiça da Suíça e pelo Comitê Olímpico Internacional por uso ilegal de verbas. No início de 2005 a ‘Federação Internacional de Voleibol’ decidiu abolir testes de feminilidade.
Os testes nunca provaram que um homem foi mascarado como uma mulher, mas eles traumatizaram mulheres intersexuais. Recentemente o 'Comitê Olímpico' aceitou a ciência moderna que afirma que o gênero não é absoluto. Esta comprovação permitiu a transexuais, pessoas que possuem o gênero cerebral opostos aos genitais, a competirem nas olimpíadas. O COI entendeu que não faz nenhum sentido barrar uma transexual ou os homossexuais nos jogos olímpicos, e concluiu que: quanto mais nós vermos essas pessoas na primeira-classe dos esportes mundiais, profissionais ou não, as pessoas começarão a entender que são o tipo de atletas que nós queremos em esportes, eles são corretos, dignos, trabalham duro, perseguem seus objetivos, não têm medo de serem o que são e são excelente competidores.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Martina Navratilova
A norte-americana Martina Navratilova, nascida tcheca, não tem apenas a maior coleção de títulos e vitórias que o esporte da raquete já viu, brilhante e polêmica, ela é a maior tenista de todos os tempos, não há o que contestar, mas também marcou seus 21 anos ininterruptos de carreira com a luta incansável pelos direitos da mulher no esporte. Nasceu em 1956 em Praga, Tchecoslováquia, foi criada em um subúrbio de Revnice por sua mãe e padastro, seu pai biológico se suicidou quando ela era muito pequena. Magra e atlética, destacou-se nos esportes desde pequena e não ligava de competir com meninos e ninguém nunca a reprimiu por andar com eles, ou por jogar hóquei sobre o gelo ou futebol.
Os pais de Navratilova eram administradores de tênis para o governo tcheco e sua avó havia estado na equipe nacional antes da segunda guerra mundial. Era natural que a ativa jovenzinha orientasse seus passos para o tênis e começasse a levá-lo a sério. Começou como a maioria das crianças, golpeando uma bola contra o muro com uma raquete improvisada, enquanto seus pais jogavam na quadra. Cresceu treinando com o pai e chegou às semifinais do primeiro torneio que participou com 8 anos. Aos 14 anos de idade ganhou seu primeiro torneio nacional e aos 16 foi a primeira classificada na Tchecoslováquia. O caminho até a consagração nas quadras de Wimbledon foi duro, mas ela chegou lá. As suas habilidades para o tênis permitiram que ela visitasse países estrangeiros, inclusive os Estados Unidos para onde viajou pela primeira vez em 1973, apaixonando-se pela comida, em particular pelos ‘hot cakes’, pizzas e hamburgers que a engordaram nove quilos. Nos anos seguintes, após superar seu aumento de peso, Navratilova começou a derrotar as melhores jogadoras do mundo. Sentindo-se cada vez mais sufocada com a administração de sua carreira pelo governo checo desertou para os Estados Unidos em 1975, pouco antes de completar 19 anos.
Homossexual assumida, Martina quebrou todas as fronteiras e foi uma das pioneiras na defesa dos direitos das mulheres homossexuais. Para ela, uma lésbica tem maiores problemas para viver nos Estados Unidos do que na Europa. Ao mesmo tempo em que participou de campanhas pela liberação sexual e se envolveu na política, destruía nas quadras suas grandes rivais. Agora, com vergonha do presidente George W. Bush obteve novamente a cid
adania tcheca. Martina Navratilova é fascinante. Sempre rigorosa consigo mesma, ela se mostra por inteiro, não foge e investe contra os preconceitos com a m
esma garra que empunha uma raquete.
patricia highsmith
Patricia Highsmith transformou criminosos em heróis e crime em romances psicológicos, rompeu com os conceitos básicos do policial e inverteu o clássico final ‘castigo para o criminoso’. Com seus livros traduzidos em 20 línguas, os seus thillers criminais psicológicos, ainda hoje, encantam leitores no mundo inteiro e tem os melhores elogios da crítica. O seu primeiro livro, ‘Strangers on a Train’ (‘Pacto Sinistro’), teve várias adaptações para o cinema, sendo a mais famosa a de Alfred Hitchcock. O filme ‘The Talented Mr. Ripley’ (‘O Talentoso Ripley’), com o insípido Matt Damon, foi a segunda adaptação do livro homônimo de Patricia Highsmith, a primeira foi ‘Plein Soleil’ ('O Sol por Testemunha’) com Alain Delon interpretando o papel principal. Patrícia torceu o nariz para as duas adaptações, na primeira, o diretor fez o amoral Tom Ripley sentir culpa de seus crimes, e culpa é algo que não existia para o personagem. Na versão francesa, que teve a melhor interpretação do anti-herói, mesmo assim irritou a autora, porque o final da historia foi alterado, Ripley acaba preso. Para Patrícia não interessava que a trama fosse um quebra-cabeça que culminasse com a descoberta do assassino, ela usava o crime como mote para mergulhar em aspectos perturbadores da psicologia humana. Interessavam-lhe, sobretudo, as condutas amorais. Nascida no Texas, mas radicada na Europa onde viveu a maior parte da sua história, Patrícia Highsmith nunca escondeu que seus livros estão impregnados de fantasmas pessoais, atormentada por traumas de infância e que tinha uma relação problemática com sua sexualidade. Até o fim da vida ela guardou mágoa da mãe, que tentou abortar seu nascimento ingerindo terebentina e mais tarde reprimiu o quanto pôde a lesbiandade da filha. Patricia só conheceu seu pai biológico aos 12 anos e, na ocasião, ele tentou abusar dela sexualmente. Na adolescência, a escritora sofreu de anorexia, fato que mais tarde atribuiria ao desejo de fugir de sua própria personalidade.
Adulta, tornou-se um poço de melancolia e contradições. Embora tenha vivido uma infinidade de relações com mulheres, tinha dificuldade em estabelecer ligações duradouras. Em alguns momentos, chegou a freqüentar o psicanalista com o objetivo de se tornar heterossexual. Apesar de lésbica, Patricia declarava ter horror à convivência com a categoria: seu par romântico ideal, dizia, eram as mulheres casadas. Curiosamente, a escritora foi acusada de misoginia pelas feministas. Elas alegavam que Patricia tinha um prazer perverso em descrever assassinatos brutais de mulheres. Patrícia Highsmith foi uma das grandes damas do suspense e seu legado é composto de livros ricamente elaborados a respeito da tênue linha que separa os bons e os maus. Crueldade com elegância era o principal ingrediente de suas tramas policiais.
Um Dos mais Famosos de seus livros é o preço do sal ou Carol
O livro é um
a história de amor lésbico um tanto conturbada. Durante a maioria das páginas do livro o leitor se encontra com raiva da protagonista. A protagonista é uma cenógrafa de 19 anos chamada Therese, que mora em Nova York sozinha em um micro apartamento, e que inicialmente namora um mala sem alça de origem russa pelo qual ela não sente praticamente nada. Carol é uma mulher bem mais velha que ela, mãe e que está se divorciando. Elas se conhecem em uma loja de departamentos e a guria de 19 anos se apaixona por ela.
Quando elas saem para viajar juntas de carro é quando descobrimos o que inspirou Nabokov. É mais um guia de viagens pelos EUA. Felizmente, ela descreve muito menos o ambiente do que Nabokov. Mas infelizmente, todas as cenas de interação das duas poderiam ser resumidas a umas quatro ou cinco.
O final do livro, graças a deus, surpreende. E surpreende bem na hora que tu acha que Manoel Carlos encarnou na Patrícia Highsmith. Não contarei o final. Não pouparei ninguém do guia de viagens. Nem de ficar com raiva da cenógrafa. Boa sorte.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Dorothy Arzner
Do set para as câmeras, a primeira diretora lésbica assumida de Hollywood
Dorothy Arzner nasceu em 1897 em São Francisco. Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, a jovem Dorothy achou que seu destino era ajudar seu país e decidiu alistar-se nas forças armadas, no campo de batalha, foi motorista de ambulância. Dorothy Arzner se formava em medicina quando visitou pela primeira vez um estúdio de cinema. Em Hollywood no início do século 20, mais precisamente em 1919, ela deu o primeiro passo para as telas, quando pleiteou um emprego como datilógrafa e revisora de roteiros. Conseguiu emprego na Paramount e seu primeiro cargo foi o de secretária, para em seguida subir para o cargo de editora de filmes. Sete anos depois, com 27 anos de idade, ameaçou pedir demissão que não foi aceita, e passou então do set de filmagens para direção de filmes, a primeira mulher a ocupar este cargo em Hollywood. Dorothy era uma figura marcante, conhecida por usar trajes masculinos e de personalidade arrojada, a diretora fez vários filmes e suas atrizes preferidas eram Katharine Hepburn, Lucille Ball e Joan Crawford, com esta última provocava rumores no estúdio. Ela chamava a atenção e o fascínio das mulheres, e das feministas que começavam a articular o movimento de libertação da mulher americana. Dorothy estreou como diretora no filme "Fashions for Women". Em sua carreira Arzner dirigiu 17 longas metragens do cinema mudo, e até os dias de hoje é reverenciada por cineastas feministas dentro e fora dos Estados Unidos. Em 1937, dirigiu Joan Crawford em "Felicidades de mentira", que se tornou um de seus filmes mais famosos. A obra mais feminista de Arzner foi "Assim amam as mulheres", de 1933. Dentre as adaptações que fez para as telas, encontra-se a obra "Nana", de Emile Zola. O primeiro filme a chamar a atenção foi o lendário “Dance, Girl, Dance” de 1940 ao abordar as tintas da homossexualidade em mulheres fortes e fatais quase tangendo a marginalidade. Seus roteiros incluíam mulheres tematicamente quase marginalizadas, e obviamente incorporando sua visão como lésbica do universo feminino, seus filmes revolucionários mostram sempre mulheres fortes em oposição ao estereótipo da mulher submissa dos anos 20 nos Estados Unidos. Dorothy vivia em companhia das mulheres e era constantemente flagrada pelos fotógrafos abraçada a Marlene Dietrich, Rosalind Russel, entre outras estrelas ou então por evidenciar no olhar um brilho especial quando em sua companhia. Dorothy Arzner, além de ter introduzido o microfone boom (o de teto), em seu último filme, "Crepúsculo sangrento", de 1943, fez propaganda anti-nazista. Neste mesmo ano interrompeu, abruptamente, seu trabalho como diretora, abandonando de vez o cinema, nunca se soube a razão, mas segundo as biografias, Dorothy era extremamente rígida, quando achava que não realizaria um filme a seu modo, preferia entregar a tarefa a outro diretor. Após abandonar o "set" de filmagens, deu aulas de cinema na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e um de seus mais famosos alunos foi Francis Ford Coppola. Após este período, ela montou uma escola de cinema, onde realizava filmes comerciais para a Pepsi-Cola através da grande amiga e atriz, Joan Crawford, que inclusive eram vistas na época como caso. A primeira lésbica assumida de Hollywood foi a primeira mulher a ser admitida no ‘Directors' Guild of América’ e durante algum tempo foi a única diretora dos mais famosos estúdios de Hollywood e deixa um verdadeiro legado de talento e coragem imprimindo a sua verdade.
Tamara de Lempicka
'Art Déco’, palavra de origem francesa é abreviação de ‘arts décoratifs’, e refere-se a um estilo que afetou a arquitetura, o design e as artes plásticas na década de 20. Edifícios, esculturas, jóias, luminárias, móveis, tudo é geometrizado e luminoso.
De todos os artistas, a bissexual Tamara de Lempicka foi uma notável e memorável pintora da ‘art déco’ e também muito influenciada pelo cubismo. Nascida Maria Gurwik-Górska, perto de Varsóvia em 1898 em uma família abastada da Polônia, seu pai era um advogado judeu-russo e sua mãe uma socialite de origem polaca.
Estudou em colégio interno na Suíça, e com 20 anos casou-se pela primeira vez com o solteiro mais cobiçado, o advogado Tadeusz Laempicki que conheceu num baile de máscaras. Um ano depois da Revolução Russa fugiram para Paris. Após o nascimento de sua filha Kizette, adota o nome Tamara e vai estudar pintura e é onde a fantástica história de Tamara de Lempicka começa.
Instalada em Montparnasse, logo fez-se famosa entre a nata da sociedade parisiense. ‘La belle polonaise’, como era chamada, torna-se um exemplo de mulher moderna e elegante, transforma-se numa verdadeira diva, tanto que, pegando carona em seu sucesso, a empresa Revlon, fabricante de cosméticos, lhe dedica uma marca de batom.
Criadora de um estilo sensual e muito sofisticado que produziu efeitos de desejo e sedução, Tamara de Lempicka foi uma das protagonistas daqueles ‘loucos anos 20’. A sua paixão pelas tintas fortes e de cores iluminadas, expõe de forma crua e fria, os sentimentos e emoções, extravagância e sensualidade, expressando erotismo em seus quadros. Reflexo dela própria, uma personalidade amante dos excessos. Em sua obra, a mulher aparece ora ultra-feminina, ora masculinizada, mas sempre forte.
Divorciada do primeiro marido casa-se com um rico aristocrata húngaro, o Barão Raoul Kuffner, e com a ameaça de uma segunda Guerra Mundial, mudam-se para Nova York. Bela, emancipada, moderna e escandalosa, personagem das noitadas nova-iorquinas, sua vida e sua obra trafegaram entre hotéis de luxo e automóveis conversíveis.
Assumiu publicamente sua bissexualidade e teve inúmeros casos com amigos, modelos e desconhecidos. Tudo com muito esplendor que camuflavam o abuso de cocaína, as dificuldades nas relações com a sua filha, com quem nunca conseguiu manter uma relação equilibrada, a depressão, e, por fim, a solidão que também é expressa em suas telas.
Após a morte do seu marido muda-se primeiro para o Texas e depois para o México onde viria falecer e conforme expresso em seu testamento, suas cinzas foram dispersas, pela filha, sobre o vulcão Popocatepetl.
Entre os admiradores e colecionadores de sua obra figuram personalidades como o ator Jack Nicholson e a cantora Madonna, que a homenageia nos videoclips de ‘Express Yourself’ e ‘Vogue’.
'Para aqueles que, como eu, vivem à margem da sociedade, as regras habituais não têm qualquer valor', esta frase define claramente o espírito e a postura ao longo da sua vida e obra.
radclyffe hall e una troubridge
viveram 28 anos juntas
Radclyffe Hall (esquerda) nasceu Marguerite, mas para os íntimos era apenas John. Vestia-se elegantemente, tinha modos aristocratas e comportava-se como uma boa inglesa de linhagem notável. Dizia pertencer ao ramo que descendia de Shakespeare. Além de nome de homem, Hall gostava de vestir-se como um e adorava posar com calça de montaria e cigarro no canto da boca. Ela era acima de tudo uma amante à moda antiga, que acreditava em fidelidade e no casamento. Mas depois de alguns anos casada com a cantora de ópera aposentada Mabel Batten, começou a se envolver com uma mulher chamada Una Troubridge, prima de Mabel. O romance secreto foi ficando cada vez mais quente e Hall, por uma questão de dever, resolveu contar a verdade para sua esposa: havia se apaixonado por Una. Não se sabe se Mabel engasgou, pois estavam jantando, ou se pelo susto levantou-se de repente, teve um ataque e caiu em coma, vítima de um derrame. Mabel morreu alguns dias depois. Hall afundou-se em sentimentos de culpa e não conseguia mais manter relações íntimas e sexuais com Una. Então, foram procurar a espírita Gladys Leonard para contatar a falecida Mabel e tentar explicar para a pobre alma os motivos daquela traição. Para surpresa de ambas, durante a sessão a falecida se manifestou, perdoou as pombinhas e ainda disse a Hall que Una era a melhor esposa que ela poderia desejar para si - já que ela, Mabel estava morta mesmo.
Una Troubridge realmente transformou-se na melhor esposa que Hall poderia desejar: amante, secretária, tradutora, agente, empresária, dona-de-casa e relações públicas numa só pessoa. Com a ajuda de Una, Radclyffe Hall tornou-se, durante a década de 20, uma das escritoras que mais vendiam livros na Inglaterra. Depois, vieram os prêmios e o prestígio. Encorajada pelo seu sucesso e por sua posição privilegiada Hall decidiu então escrever um romance "em defesa das mais mal interpretadas almas do mundo: os invertidos!". Nascia assim "O Poço da Solidão", (sinopse aqui) certamente o romance lésbico mais importante do século. Tudo começou a acontecer muito rapidamente: num espaço de quatro meses o livro foi sucesso de vendas, criou polêmica e virou objeto de um processo legal que agitou a Inglaterra. Trinta anos depois de Oscar Wilde, a homossexualidade virava notícia novamente. Se por um lado a intelectualidade inglesa mobilizava-se em torno da questão da liberdade de expressão, por outro lado nunca a Inglaterra ouviu tanto a palavra "invertido". Em novembro de 1928 "O Poço da Solidão" foi finalmente proibido, acusado de obscenidade. Mas de obsceno o livro não tinha nada. Nem uma só cena de sexo. Era um livro comportado, que pretendia mais esclarecer que escandalizar. Hall queria provar uma tese recente e inovadora, de que a homossexualidade era inata. Portanto, não poderia ser considerada crime ou doença e deveria ser encarada com mais compaixão pela sociedade, cujo dever era acolhê-los e não rechaçá-los. Então, escreveu um romance onde a heroína lésbica acaba jogando a sua amada nos braços de um homem, para poupá-la do escárnio público: um sacrifício por amor bem ao estilo de seus outros romances açucarados que haviam feito tanto sucesso anteriormente. Apesar da proibição, o livro foi contrabandeado como droga afrodisíaca para a Inglaterra e Estados Unidos - onde também sofreu restrições - e virou cult nos países onde circulava livremente. Vendeu nas duas décadas seguintes uma média de 100.000 exemplares ao ano no mundo inteiro e é um fenômeno editorial que continua a ser reeditado e vende bem até hoje - um verdadeiro clássico. Depois do escândalo do julgamento, a carreira de Radclyffe Hall sofreu um baque. Apesar de não ter sido julgada - pois lesbianismo não era considerado crime - ela nunca mais emplacou um sucesso. Hall acreditava que a sociedade inglesa fosse capaz de tolerar e aceitar a homossexualidade. Errou. Era cedo demais. No entanto, conseguiu fazer com que todos falassem do amor que até então não ousava dizer seu nome. Marguerite Radclyffe Hall - John para os íntimos - morreu em 1943, aos 63 anos, de câncer. Ainda estava casada com Una. Mas não viveu para ver seu livro liberado na Inglaterra em 1949.
RadclyffePara escrever O Poço da Solidão, Radclyff Hall baseou-se em um conjunto de trabalhos teóricos escritos por sexólogos europeus durante a segunda metade do século XIX, que enfatizam as origens congênitas da orientaçào sexual. Hall foi influenciado principalmente pelo trabalho de Havelock Ellis. Herdeira de uma familia tradicional e batizada com nome de homem por impulso d pai, Stephen e uma "invertida ", discriminada por seus gestos e sua aparencia masculinos. Expulsa de casa, viaja pela Europa ate encontrar no front da Primeira Gerra outras mulheres iguais a ela. Publicado pela primeira vez em 1928. O poco da solidao foi inicialmente considerado obsceno, mas a polemica serviu para despertar a atencao do publico britanico para a questao do lesbianismo.













