quarta-feira, 14 de abril de 2010

rosely roth

Rosely foi a principal mentora e articuladora da manifestação no Ferro’s Bar, cuja militância excepcional iluminou os sombrios anos 80

"Elas viviam silenciadas, o prazer era profano aos outros olhos, mas elas se amavam intensamente, sob a luz da lua e dentro de seus quartos, com as luzes acesas, e, por um único instante, se esqueciam do mundo, das dores, dos filhos, das roupas para lavar e da constante obrigação de se anularem cada vez mais. Muitas mulheres nasceram, casaram-se, tiveram filhos, foram escravizadas e morreram em função de uma sociedade patriarcal, machista, mas não se esqueciam nunca de sua mente capaz, de seu coração ardente e do seu sexo pulsante. Umas acreditaram que nada podiam fazer, outras foram à luta para poderem acontecer. Essas mulheres, amantes, mães, trabalhadoras, deusas, aos poucos foram conseguindo seu espaço, sua inclusão na sociedade, viveram e morreram, para nós hoje podermos desfrutar de intensa liberdade. Elas saíam à luta, à guerra todos os dias, reivindicando um direito que a elas era negado: o direito de amar. Amar não um amor imposto, obrigado e escravizado, mas um amor puro vindo delas mesmas, o poder de decidir a quem amar, escolher seus homens ou ficarem sozinhas, ou até mesmo o direito de amar umas às outras. Por que não? Por que limitar o amor a uma classe, um grau, um gênero? O amor dessas mulheres foi tão longe e tão intenso ao ponto de perceber que se podia amar uma irmã, seu corpo, seus gostos, seus defeitos, seus jeitos e seu sexo. Essas guerreiras, amantes entre si, se espalharam por todos os lugares, irradiando as diversas possibilidades a todas as mulheres do mundo, que aos poucos foram se libertando das amarras impostas, e hoje vivem com orgulho de serem livres, de serem lésbicas e de possuírem o dom supremo do amor. Rosely Roth foi uma dessas mulheres. Lésbica, militante e guerreira, brigou com unhas e dentes e ao mesmo tempo com simplicidade e amor para viver em uma sociedade mais justa e respeitadora. Quando o Brasil se calou e se curvou diante de Figueiredo e seu governo ditador, Rosely se ergueu diante da multidão e levantou com ela dezenas de outras mulheres que também acreditavam que podiam mudar o mundo. Em uma ocasião Rosely Roth foi ao programa da apresentadora Hebe Camargo, ao vivo, em rede aberta, defender uma filha lésbica de uma mãe homofóbica. A mãe, revoltada, estava a ponto de agredir Roseli, que permanecia calma e serena, apesar de possuir todos os motivos para revidar os insultos e provocações dirigidos a ela. Após o ocorrido, o programa ficou proibido de ir ao ar ao vivo. A apresentadora, então, comprou a briga, dizendo que ela não tinha culpa por Roseli Roth ser uma lésbica inteligente, o que fez com que todo o Brasil acompanhasse o caso, dando muito crédito à comunidade lésbica."

(texto de Alessandra Guerra)

Em 21 de agosto de 1959, em tradicional família judia, nascia Rosely Roth. Em 1981 formou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), em 1985/86 pós-graduou-se em Antropologia na UNICAMP. A partir de 1981, iniciou a sua participação como ativista nos grupos "Lésbico-Feminista/LF" e "SOS Mulher", no final deste mesmo ano, fundou, com Miriam Martinho, o "Grupo Ação Lésbica-Feminista/GALF". No ano seguinte, deixa o "SOS Mulher" e passa a se dedicar somente ao GALF, onde se destacou por seus manifestos e artigos nas publicações “ChanacomChana” e “Um Outro Olhar”, e pela organização de debates com grupos feministas, homossexuais e de negros, com políticos, e também por sua participação em manifestações, encontros, congressos, incluindo pela sua presença na mídia, se assumindo publicamente como lésbica. Em 28 de agosto de 1990, morria Rosely Roth, com apenas 31 anos de idade.

Porque prestar homenagem à Rosely Roth?

(MixBrasil) - “Num período em que nenhuma outra mulher o fazia e o ativismo LGBT era alimentado pela simples consciência e idealismo e não por verbas de organizações governamentais e outras instituições, ela se expôs com a cara e a coragem em inúmeros espaços, passando uma imagem super-positiva das mulheres homossexuais, numa militância insuperável até os dias hoje”.

(Miriam Martinho) - “Rosely Roth foi pioneira no que se convencionou chamar de “política da visibilidade” em uma época (década de 80) em que, com raras exceções, ninguém mais o fazia, aliando aparições públicas, geralmente marcantes, a uma fundamentação teórica que lhe permitiu ir além do ramerrão vitimista e reformista que muitas vezes caracteriza o discurso e as atividades dos grupos sociais discriminados. As profundas crises emocionais que a levaram ao suicídio, em agosto de 1990, em nada empanam o brilho de sua trajetória política que se destacou pela coragem, pelo dinamismo e pela coerência discursiva.”

(Rede de Informação “Um Outro Olhar”) - “Na década de 90, a visibilidade ganhou as páginas dos jornais, os programas de TV e até as ruas, em manifestações de orgulho cada vez maiores e com várias pessoas dando as caras, mas até hoje, não surgiu que superasse em excelência, Rosely Roth como a ativista lésbica do Brasil. O trabalho da "Rede de Informação Um Outro Olhar", em suas atuações pela saúde e os direitos humanos das mulheres (em particular das lésbicas) e das minorias sexuais é dedicado à sua memória. Da mesma forma, em sua homenagem, decidimos marcar o dia 19 de agosto, dia da manifestação no Ferro’s Bar, chamada pelos ativistas da época de nosso pequeno Stonewall Inn, como Dia do Orgulho Lésbico Brasilero. Assim também, prestamos nosso tributo ao Ferro’s, fechado no começo de setembro (2000) que, por 38 anos, foi palco de tantas histórias de amor, de tantas histórias políticas e culturais das lésbicas não só paulistanas como de todo o país."

Frida kahlo

Movida pelo amor, movida pela dor, a vida de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon foi um tumulto desde o princípio: aos seis anos contraiu poliomielite e isso a deixou capengando de uma perna. Sofreu um acidente ao sair da adolescência, em um ônibus, onde além de fraturas generalizadas, foi perfurada por uma barra de ferro que entrou pela bacia e saiu pela vagina. Sofreu dezenas de cirurgias ao longo da vida, por conta disso a sua saúde sempre foi frágil. Depois do acidente, Frida recebeu da mãe material de pintura. Como não podia levantar-se, olhava para si mesma, na cama, através de um espelho pendurado e assim começou a pintar em um estilo surrealista e primitivista. As cores são fortes e as imagens chocantes, brutais. ‘Eles dizem que minha arte é surrealista, mas como ser, se tudo o que mostro em cores é minha própria vida?’

A pintura de Frida é a sua própria história, da sua dor e angústia. Ainda por conta do acidente, não podia ter filhos e essa frustração foi amplamente retratada em sua obra. O que Frida pintou foi o seu sofrimento, suas feridas, sua dor, o seu próprio sangue, pode-se ver o seu corpo mutilado, cortado, sofrido, carregado das cicatrizes que o retalharam. Tinha uma completa dependência emocional do marido, Diego Rivera, a quem amou profundamente e com quem levou uma vida instável e tumultuada. As fases ruins com Rivera pioravam a sua saúde. O marido tinha amantes e ela também. Dos dois sexos. Para Rivera, as relações homossexuais de Frida eram perfeitamente permitidas, o mesmo não acontecendo com as relações heterossexuais, mas ela as mantinha assim mesmo. Sofreu como poucas mulheres sofreram em suas vidas, com traições, frustrações e solidão - como se não bastassem as mutilações e as 35 cirurgias que fez ao longo de 30 anos, aproximadamente. Teve momentos de felicidade, onde sorria com muita freqüência e expressava-se com palavrões ditos sonoramente com sua voz profunda. E levou uma vida sexual variada e intensa, difícil até de se imaginar como, por conta da média de uma cirurgia por ano. É importante que se diga que Rivera era o mais importante pintor mexicano naquele tempo e só depois, com a redescoberta de Frida mais recentemente, ela pode equiparar-se a ele em termos de fama e reconhecimento. Foi Rivera, após a morte da esposa, que fundou o museu em sua homenagem para preservar a obra 'da mais importante pintora mexicana'. Frida morreu aos 47 anos, em 1954, no seu México de nascimento e adoração, morreu de uma overdose de medicamentos ou de uma pneumonia - não está completamente esclarecido, suspeita-se de suicídio, mas isso também não é certo. Por muitos anos escreveu um diário carregado de confissões, poemas e desenhos, quase sempre alegres, mas onde também fala do seu terrível sofrimento. Morreu com dores terríveis e só a morte a livrou do sofrimento. Pouco antes de morrer, deixou dito: ‘Tomara que nunca mais eu precise retornar’.

Um rosário de lindas e inteligentes mulheres passou pela cama e marcou presença no coração da genial Frida Kahlo. E como se não bastasse a sua força de viver diante dos infortúnios, ela deixa acima de tudo, um legado que não tem preço: a sua desenvoltura diante do amor, do sexo e do prazer. Tanto o seu envolvimento com mulheres quanto com homens era sem culpa. Tem-se nessa Deusa Azteca não somente uma autodidata do surrealismo, mas também a Frida mulher, bissexual sempre dada ao prazer. Não lhe escapou ao coração a estonteante atriz Dolores Del Rio como tantas outras do seu itinerário de conquistas. A atrofia física não lhe ofuscava o espírito. Era uma sedutora nata. Mulher bonita à sua época, tanto por homens quanto por mulheres era cobiçada. Deixou um legado maior que a sua reconhecida e concorrida obra, a sua personalidade avassaladora. Tênue a sua saúde, mas impulsiva a sua coragem e o seu apego à vida. Esta é a Frida Kahlo da heróica resistência do corpo, a mexicana da alma inquieta que soube conduzir tão bem uma paixão. De uma curta, mas intensa existência. Assim foi e continua sendo Frida Kahlo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Susan B. Anthny

feminista que tirou as mulheres da cozinha, a mãe de todas nós. Susan B. Anthony (foto da esquerda) foi a maior defensora dos direitos das mulheres numa época em que elas eram consideradas cidadãs de terceira classe. Nascida em 1820, Anthony se engajou na luta feminista em 1851 com o intuito de corrigir vários erros da sociedade vitoriana. Querem ter uma idéia da penúria em que se encontrava o dito 'sexo frágil' na América do século XIX? Vamos lá: as mulheres não tinham direito à propriedade, ou seja, não podiam registrar nenhum bem em seu nome; não tinham direitos sobre os próprios filhos, que podiam ser arrancados de seus braços se os seus maridos assim o desejassem; deviam obedecer aos seus pais, maridos e irmãos, o que significava, na prática, que eram propriedade dos homens de sua família; as operárias ganhavam uma miséria comparada à paga dos homens e geralmente a jornada diária chegava a ter 16 horas; as poucas abastadas que conseguiam estudar cursos superiores não podiam exercer a sua profissão, pois o mercado de trabalho era totalmente fechado a elas e, finalmente, nenhuma mulher, rica ou pobre, branca ou negra, podia votar.Pouco a pouco, com a ajuda de um pequeno exército de mulheres briguentas, Susan B. Anthony conseguiu que todas essas restrições fossem eliminadas. Sua primeira conquista foi a regulamentação do direito à propriedade, mas sua principal ambição - o direito ao voto - só foi instituído depois de sua morte. No entanto, tão grande era o débito do povo americano ao empenho desta mulher que a décima nona emenda, que garantiu o voto às mulheres, é conhecida até hoje como a 'emenda Anthony'. Um outro aspecto de Susan era sua aversão aos homens e seu amor pelas mulheres. De tanto odiar a sociedade patriarcal em que vivia, Anthony resolveu que jamais iria se casar e, de fato, permaneceu solteira para o resto de sua vida. Mais que isso, muitos historiadores especulam que Anthony pode ter tido algumas relações lésbicas, principalmente na idade madura.Algumas de suas cartas para a jovem Anna Dickinson (foto da direita), a mais bela e cativante oradora feminista da América, atestam um amor quase carnal: 'Anna, querida, quisera pudesse apertá-la forte em meus braços neste exato momento', ou quando a convidava para a sua cama, que dizia ser 'grande o bastante e boa o suficiente para acolhê-la'. Dickinson, por sua vez, retribuía cada palavra e gesto afetuoso de Anthony, a quem admirava profundamente, escrevendo cartas igualmente apaixonadas: 'Eu realmente quero te ver, muito, segurar tuas mãos nas minhas, ouvir tua voz, em suma, eu te quero - será que posso te ter?'.Este tipo de ligação apaixonada entre uma mulher mais velha e uma jovem era bastante comum entre as sufragistas americanas. Muitas delas, assim como Anthony, não se casavam porque julgavam que as obrigações de esposa inviabilizariam sua dedicação à causa. Assim, sem maridos para sustentá-las (ou prendê-las), essas mulheres se apoiavam umas nas outras. Se havia sexo nestas relações apaixonadas era impossível saber, devido à extrema discrição e os perigos de difamação que rondavam estas mulheres, apenas por serem feministas.Essas associações íntimas entre duas mulheres eram também chamadas de 'amizades românticas' ou 'casamentos bostonianos' e eram tão fascinantes que muito se escreveu sobre elas. Dizem que Henry James inspirou-se nas próprias Susan B. Anthony e Anna Dickinson para compor as personagens Olive Chancellor e Verena Tarrant, respectivamente, em seu romance 'The Bostonians'. Musa inspiradora de gênios como Gertrude Stein e Henry James, sinônimo da emancipação feminina, Susan B. Anthony foi uma mulher controvertida e apaixonante. Não à toa, Gertrude Stein a eternizou como 'A Mãe de Todas Nós'. Não seríamos nem metade do que somos não fosse sua raivosa, às vezes equivocada, mas bem sucedida luta por nossos direitos e seu incondicional amor pelas mulheres.

Soraya Bittencourt

uma brasileira e lésbica que mudou a percepção feminina no mundo da engenharia eletrônica e da computação no Brasil. De família pobre, porém batalhadora, Soraya Bittencourt, é uma homossexual brasileira que quebrou preconceitos desde os anos 70 ao ingressar em uma universidade pública no Rio de Janeiro para se formar em engenharia, profissão genuinamente masculina para a época.Desde muito cedo, Soraya já apresentava traços bem diferenciados que as meninas da época, sua diversão preferida era desmontar e montar utensílios domésticos e também criar invenções a partir de sucatas, como seu primeiro invento: um projetor de slides, feito a partir de uma saboneteira e uma lanterna. Trabalhou e provou que engenharia e máquinas eram também para garotas e, aos 21 anos, já estava em um bom posto na Sousa Cruz. Depois trabalhou na Embratel e foi responsável por acionar o motor apogeu que colocou em órbita o Brasilsat 1, o primeiro satélite do Brasil que mudou o sistema de telecomunicações brasileiro. Permitiu que qualquer lugar do nosso pais recebesse as noticias diárias da televisão assim como sinais telefônicos e de rádio. Soraya também introduziu lasers para o entretenimento no Brasil e participou com a NASA na recuperação de dois satélites. Até se tornar uma das melhores profissionais de desenvolvimento da Microsoft, hoje a maior potência na área de tecnologia em software.Vinda de um casamento fracassado, Soraya encantou-se por algumas garotas e passou a ter plena convicção de que seus desejos afetivos e sexuais eram por mulheres. Encarou o preconceito de uma separação e foi morar com uma “amiga”, Lucila. Soraya então decidiu ir viver nos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de vida, sobretudo em sua carreira profissional, e então convenceu Lucila a imigrar com ela. Naquele país, começaram fazendo faxinas e lavando pratos até que, conseguindo legalizar-se retornou a sua profissão de origem, engenharia de sistemas e computação, e trabalhar em uma pequena empresa de tecnologia, onde foi bem sucedida.Em seguida, abriu uma loja de serviços de informática em Boston e, após o assédio de grandes empresas, transformou-se em diretora de software na ‘Number Nine Corporation’, gerente de Engenharia de Produtos Multimidia na ‘Lotus Development’ e mesmo sendo mulher, latina e lésbica, conseguiu atrair a atenção de Bill Gates e desenvolver um projeto de sucesso na empresa mais competitiva do mundo. Na Microsoft criou a primeira agência de viagens na Internet a ‘Expedia.com.’ que revolucionou o mercado turístico e transformou a maneira de comprar passagens e fazer reservas em hotéis, usando somente a internet. Sua especialidade reside em desenvolvimento de aplicativos, para a Internet e para aparelhos portáteis como o telefone celular ou o Pocket PC. Ela possui uma série de patentes nessa área.Atualmente ela é Chief Executive Officer e fundadora da ‘Nutrihand Inc’. A missão da Nutrihand é fornecer tecnologia pela internet para gerenciamento da saúde, fornecendo aos consumidores ferramentas para prevenir e gerenciar doenças, como a hipertensão, diabetes, obesidade, problemas renais, e outras. Profissionais de saúde usam os serviços para servir melhor seus pacientes, monitorar o tratamento a distância, interferir quando necessário e atingir melhores resultados a baixo custo.Após anos lidando com diabetes e sendo incapaz de encontrar qualquer solução que possa ajudar a gerenciar essa doença, Soraya decidiu criar uma empresa que tivesse como foco a criação de ferramentas para melhorar a vida dos diabéticos não só como ela, mas também de pessoas que sofrem de outras doenças crônicas. Fora do trabalho, Soraya toca bossa nova e jazz no saxofone. Trabalha também com a comunidade para ajudar na luta contra a AIDS, e na luta pelos direitos iguais para todos. É também, autora do livro ‘Uma vida de sucesso – como uma homossexual se deu bem na Microsoft’, um relato biográfico autêntico e inspirador de uma mulher que foi atrás do que queria. No livro, ela revela como driblou preconceitos e tornou-se uma milionária da indústria de tecnologia americana, e conta detalhes curiosos sobre o mundo da informática no Brasil e nos Estados Unidos, as dificuldades que os brasileiros enfrentam num país estrangeiro e o desafio de se deixar um casamento heterossexual para assumir um relacionamento homossexual.

A homossexualidade no decorrer da história

Grécia Antiga
A palavra homossexual é originária do século XIX a partir do grego ‘homo’ (igual) e do latim ‘sexus’. Portanto, na Grécia Antiga tal expressão inexistia, existia a pederastia, que para os gregos era o amor de um homem maduro por um adolescente. A relação também incluía a questão do status social, nesse sentido o homem deveria ter ascendência intelectual, cultural e econômica sobre o adolescente. Afinal, ele complementaria a formação do jovem, iniciando-o nas artes do amor, no estudo da filosofia e da moral. É com o advento do cristianismo que essas relações passam a ser vistas como pecaminosas. Havia todo um ritual envolvendo a aproximação do homem que estivesse interessado por um adolescente. A ‘corte’ era necessária para que a relação tivesse o caráter de bela e moralmente aceita. Os papéis nesse caso eram bem definidos, o homem (erastes) fazia a corte e o adolescente (erômeno) era o cortejado, podendo deixar-se conquistar ou não. A pederastia entre dois homens adultos não era comum e, quando ocorria, era reprovada, pois um homem não podia ser passivo com outro homem, muito menos se este fosse um escravo ou de classe inferior.O casamento era monogâmico, não por razões religiosas, mas seculares. O fato do homem ter uma esposa não o impedia de se relacionar com um adolescente. E nem o fato de se relacionar com o adolescente significava o fim do seu casamento. A pederastia dificilmente alterava a imagem do homem perante a sociedade, pois o amor ao belo, ao sublime e o cultivo da inteligência e da cultura não tinha sexo. Condenável era a busca do sexo pelo sexo. Quando os gregos escreviam sobre o amor entre os homens eles o exaltavam como a mais alta forma de afeição. Ele incluía uma ligação emocional, uma profunda amizade, valores em comum e um compromisso em torno de uma tarefa. Sexo não era o ponto principal do relacionamento, e sim a virtude.
A homossexualidade feminina também teve seu lugar na Grécia Antiga. Ao homem era permitido o relacionamento extra-conjugal, ao contrário da mulher, que não tinha mais direitos políticos e legais que um escravo. Não recebiam qualquer tipo de educação formal e eram obrigadas a passar a maior parte do tempo nos aposentos destinados a elas em seu lar submetendo-se a casamentos arranjados. Nem sempre as esposas negligenciadas se queixavam. Algumas, a despeito das dificuldades, conseguiram encontrar consolo em outra parte. Não obstante, a maioria parece ter recorrido a expedientes menos arriscados da masturbação ou homossexualidade. As mulheres homossexuais eram designadas pelo nome de ‘tríbades’, que significa ‘pessoa que se esfrega’. Existem referências a um objeto semelhante a um pênis, denominado ‘olisbos’ ou ‘dildo’, usado para satisfação homossexual ou auto-erótica.Os atenienses consideravam o tribadismo mais comum em Esparta. Plutarco mencionou que em Esparta: ‘O amor era encarado com tanta honra que até as mais respeitáveis mulheres ficavam enfeitiçadas por mocinhas’. A ilha de Leucas também era ‘suspeita’, parcialmente, porque o primeiro livro com posturas tribádicas, segundo se dizia, tinha sido escrito por uma leucadiana, Filênis. Entretanto, Lesbos é que foi encarada como a pátria espiritual, aquela ilha onde a ardente Safo amou e cantou. Com o passar do tempo, seu nome e o da ilha começaram a alcançar um significado especial: ‘amor lesbiano’, o qual foi usado após a palavra tribadismo cair em desuso.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Annemarie Schwarzenbach

Ela sempre esteve com o pé na estrada, uma vida errante sem fim e total ausência de esperança. Foi descrita por poetas e admiradores, como anjo inconsolável, e pelo escritor Thomas Mann, o célebre autor de "Morte em Veneza", que a conheceu muito bem quando amiga de seus transgressores e drogados filhos Erika e Klaus, como anjo devastado. Anais Nin encantou-se com a garota alta, magra e sombria, imaginando ser ela a sua própria alma que a visitava. Ela sempre despertou amores impossíveis. Annemarie Schwarzenbach, confundida muitas vezes com um rapaz pelo seu aspecto andrógino, nasceu em 1908, em Zurique, Suíça, filha de um proprietário de um império têxtil, foi educada nos melhores internatos para moças ricas. Formada em História, publicou "Amigos de Bernhard", obra elogiada pela crítica e mudou-se para Berlim onde foi acolhida pela elite intelectual. Escritora atormentada e viciada em morfina, íntima dos malditos Mann, suicida em potencial, embora tenha morrido acidentalmente aos 34 anos, de uma queda de bicicleta, após hemorragia cerebral, também foi correspondente de guerra, arqueóloga e fotógrafa. Lésbica transformada em ícone gay, Annemarie mergulhou no lado sombrio da vida em uma existência dolorosa entre fugas, vícios, uma eterna e desesperada busca do amor e uma difícil relação com uma opressora e sufocante mãe. Seus escritos falam de amores homossexuais. Ainda na Alemanha, antes de fugir do nazismo, escreve a peça histórica "Cromwell". Apaixonada por Erika Mann e, não correspondida, parte para uma viagem de sete meses pela Ásia e termina rompendo definitivamente com a sua família, esta mais preocupada com o julgamento da sociedade e também adepta ao nazismo. Viajou de automóvel, um velho Ford, da Suiça ao Afganistão, passando pela Itália, Iugoslávia, Bulgária, Turquia e Irã, correndo do terror hitleriano na companhia da amante jornalista e escritora Ella Maillart (foto) que mais tarde, escreveu sobre Annemarie: ‘escolheu uma vida complicada, a estrada cruel do inferno. Acreditava no sofrimento. O venerava como a fonte de toda grandeza’. Ella Maillart acabou cansada de sua desequilibrada acompanhante e amante, do demônio que a corroía, de suas crises, de suas recaídas na droga, de seu excesso de sensibilidade. Porém nunca deixou de se sentir atraída pelo seu encanto e sua profunda vulnerabilidade. No seu livro "Morte na Pérsia" (Tod in Persien), Annemarie fala de suas várias passagens no Irã, uma terra desértica onde projetou o seu sofrimento, um país que oferecia um território de tentações para seus vícios, suas crises mentais e seus amores homossexuais. Os cachimbos de haxixe e a vodka tomada furiosamente, a necessidade de comprometer-se na luta contra o nazismo, a complexa relação amorosa com uma garota de Teerã, filha do embaixador turco, e o seu passageiro casamento de conveniência com um diplomata francês para dissimular seus romances com outras mulheres. A velha Pérsia, era o lugar onde exorcizava sua angústia, seus medos e suas obsessões. Uma existência que ela mesma resumiu num grito pavoroso: "Deixem-me sofrer!". Depois de muitos anos de esquecimento, e graças aos esforços de Ella Maillart, a importância de Annemarie Schwarzenbach foi resgatada nos anos 80 com a publicação suíça de suas obras.

Alice Walker

Alice Malsenior Walker, escritora e feminista sempre foi uma ativista pelos direitos dos negros e das mulheres, destacando-se na luta contra o ‘apartheid’ e contra a mutilação genital feminina em países africanos. De origem africana, filha de agricultores nasceu na Geórgia em 1944, iniciou sua carreira de escritora com ‘Once’, um volume de poesias. Escreveu também o livro ‘De amor de desespero’, uma coletânea de vários contos, uma obra composta pelas vozes de várias mulheres negras do sul dos EUA, mulheres diferentes com seus temores, desafios e sonhos. Mas Alice Walker alcançou fama mundial com ‘The Color Purple’, premiado com o ‘Pulitzer’, e dando origem a um dos mais belos filmes de Steven Spielberg, com a atriz Whoopi Goldberg no papel principal e traduzido no Brasil como ‘A Cor Púrpura’.
Em 2006, Alice falou de sua relação amorosa com a cantora Tracy Chapman durante uma entrevista para o ‘The Guardian’.Um dos assuntos recorrentes nos trabalhos de Alice Walker é a insistência em buscar a verdade nas relações entre luta e mudança na dolorosa vida das pessoas negras, motivo de protesto da escritora, principalmente das negras. A forma da narrativa de ‘The Color Purple’, é epistolar, técnica literária que consiste em desenvolver a história principalmente através de cartas, que era o modo de expressão mais utilizado no Oeste. As feministas históricas acreditavam que elas eram as principais fontes de informações objetivas e subjetivas dos fatos da vida diária das mulheres e enfatizavam a opressão das mulheres negras vividas nas suas relações com os homens negros (pais, irmãos, maridos, amantes) e a solidariedade mútua que precisavam ter para se auto-libertarem. Alice aborda o proibido na narrativa em tela, focalizando o incesto e retrata a relação lésbica como natural e livre.O período histórico retratado é um ano antes de 1920 e depois do final da escravidão nos Estados Unidos, que ocorreu oficialmente em 1865. Na obra, Alice Walker constrói com sensibilidade e talento, sua maior personagem: Celie, uma mulher negra sulista, com apenas 14 anos, quase analfabeta, que vive em uma realidade dura de pobreza, opressão e desamor e que escreve cartas para Deus, única forma de manter a sanidade e de expressar seus sentimentos e observações sobre a vida. Celie não era considerada como pessoa, mas sim tratada como objeto. O padrasto, que a violentou, e o marido acabaram com sua auto-estima, relembrando-a sempre que era apenas uma pobre e feia mulher negra, nada mais que isso. Cellie representa todas as mulheres que vivem na sombra de maridos dominadores. É uma alma cheia de anseios e sentimentos que luta com suas armas sutis para manter a sua dignidade.Os homens são opressores brutais, inimigos. Shug Avery, uma sensual cantora de blues e Celie se apaixonam. Desde que aprende a amar a si mesma, ama os outros e Celie descobre a sexualidade através da relação lésbica com Shug Avery e parte com ela para Memphis, libertando-se da escravidão e abusos que o marido lhe infligia. Para Celie, essa relação é a única escolha e inicia uma vida nova e constrói sua identidade como ser humano, como mulher. O amor por outra mulher abre um espaço para a realização pessoal e sexual da mulher no qual a identificação com outro ser igual possibilita a auto-integração do sujeito feminino.

berenice abbott

A fotógrafa que foi aprendiz de Man Ray, e não se contentou só com isso.
Ela foi a primeira fotógrafa a ser admitida na Academia Americana de Artes e Letras, em 1983, quando já octogenária. Foi assistente de Man Ray, um dos nomes mais importantes do movimento vanguardista da década de 1920, responsável por inovações artísticas na fotografia, até o dia em que a mega-mecenas Peggy Guggenheim negou-se a posar para o fotógrafo surrealista e disse preferir os serviços dela, a aprendiz.Viveu o auge dos loucos anos entre o Greenwich Village novaiorquino, a Rive Gauche parisiense e a vida boêmia de Berlim. E era lésbica. Berenice Abbott nasceu em Springfield, Ohio, no dia 17 de julho de 1898. Mal terminou a adolescência, mudou-se para a cosmopolita Nova York onde deu de cara com uma das trupes de teatro mais bacanas da cidade: o ‘Provincetown Players’, grupo de vanguarda que revelou os escritores Eugene O’Neill e Djuna Barnes. Tornou-se mais uma da turma até que, em 1921, como quase todos os artistas do Greenwich Village e com apenas seis dólares no bolso, partiu para a Europa com planos para uma vida nova.Disse a quem ficava que, se era para morrer de fome, melhor morrer em Paris. Não morreu de fome, mas pode-se dizer que morreu de amores. Sua carrasca e algoz foi uma escultora americana que conheceu durante uma breve, mas inesquecível estada em Berlim. Seu nome era Thelma Wood, tida como irresistível, um animal sexual, uma beberrona andrógina que usava os cabelos curtos e seduzia a todos. Abbott não resistiu e apaixonou-se por Thelma. Thelma também se apaixonou por algum tempo. Até entrar em cena a escritora Djuna Barnes (veja aqui a história delas), antiga conhecida de Abbott, que foi apresentada a Thelma, e elas caíram de amores deixando Berenice a ver navios.Abbott jamais perdoou Djuna por ter lhe roubado a namorada, mas nunca hostilizou Thelma. Talvez porque soubesse que Thelma era assim mesmo, irremediavelmente sedutora o que Djuna Barnes haveria de descobrir alguns anos depois, para seu enorme desgosto. Deixando Thelma, Djuna e Berlim para trás, Berenice voltou a Paris onde começou a ganhar um dinheirinho como assistente de outro camarada do Village, o fotógrafo Man Ray. Com Ray ela aprendeu tudo sobre fotografia e logo colocou suas asinhas para fora. Revelando-se uma excelente retratista, Abbott passou a ser mais e mais solicitada por alguns clientes bacanas, como Peggy Guggenheim, despertando um enorme ciúme em Ray.Ela, que já era famosa pela falta de diplomacia, brigou com o fotógrafo e largou o emprego. Mas andar com suas próprias pernas não foi tão difícil e o sucesso logo bateu à sua porta. Abbott fotografou muito artista interessante, até a sua desafeta Djuna e sua ex Thelma, e ainda tinha tempo e dinheiro para gastar na noite parisiense. Certa vez, ela e a namoradinha da hora, a atriz Eva La Gallienne, resolveram arriscar-se pelos barzinhos lésbicos mais barra pesada e acabaram detidas pela polícia.Bons tempos, loucos anos! Logo após a depressão americana de 1929 Abbott resolveu que era hora de voltar a Nova York e iniciou seu longo projeto 'Changing New York', um registro fotográfico dos prédios, da população e da paisagem urbana cada vez mais em mutação. Este acabou se tornando seu trabalho mais conhecido, e pelo qual ela é hoje considerada um gênio da fotografia. Depois, na década de 1950, passou a atuar na área científica, fotografando campos magnéticos e pêndulos, colocando a imagem a serviço da ciência.Abbott foi inventora de algumas tecnologias e aparelhos fotográficos, mas perdeu muito dinheiro com essas invenções que, apesar de geniais, eram pouco comerciais. Ao final da vida contraiu um enfisema, fruto de muitos anos respirando produtos químicos para revelar filmes, muito tempo fotografando ao relento no alto dos prédios nova-iorquinos e décadas fumando os habituais e indispensáveis cigarros. Morreu tranqüila num mês de dezembro de 1991, aos 93 anos de idade.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Marcela e Elisa duas Lésbicas do Porto


Marcela e Elisa, duas mulheres da Corunha que casaram em 8 de Junho de 1901, pela igreja. Na foto da boda, percebe-se como: Elisa cortou o cabelo e compareceu vestida de homem, transformada num indivíduo chamado Mario, entretanto convertido ao cristianismo e baptizado. A mentira, porém, durou pouco tempo.
As duas mulheres foram descobertas e viram-se acossadas por dezenas de títulos de jornais: “Casamento sem homem”. Marcela e Elisa fugiram para o Porto, pensando que aqui, num país estrangeiro, estariam a salvo da perseguição, mas, no dia seguinte, acabaram por ser presas. A cidade achou que eram “duas desgraçadas” e ficaram 13 dias na prisão. Libertadas, ficaram a morar no Porto o mais discretamente que puderam e, no início de 1902, Marcela acabou por parir um filho, gerado não se sabe por quem. Nesse mesmo ano, o casal partiu para Buenos Aires.
Podemos notar que há muito anos o lesbianismo é motivo de castigo para as mulheres, mesmo hoje ainda existe muito homofobismo apesar de ja ser cosiderado crime.

jane bowles e sherifa

Em tempos de polarização entre ocidente e oriente vale a pena lembrar de um curioso caso de amor entre duas mulheres durante os anos 50 e 60. O romance entre a escritora americana Jane Bowles (foto) e a marroquina Cherifa foi cercado de assombro, suspeitas e desconfianças de todos que as conheciam, árabes ou ocidentais. O motivo para tanta intriga foi simplesmente o enorme fosso entre duas culturas tão distantes. E, no entanto, o amor brotou entre as duas mulheres, a despeito da torcida contrária de ambos os lados. O ano é 1947 e Jane e Paul Bowles, um casal muito moderno de escritores americanos, chega para uma longa temporada em Tânger, no Marrocos. Entediado da vida na América, Paul vivia buscando aventuras em países exóticos. Nem sempre Jane o acompanhava e nem mesmo Paul esperava que ela o fizesse - afinal, aquele não era um casamento típico. Para completar, Paul era gay, Jane era lésbica e o casamento, pasmem, não era de fachada - eles se amavam verdadeiramente. Quando chegaram ao Marrocos - para morar definitivamente - o sentimento nacionalista da população começava a tomar proporções grandiosas, inspirado pela crescente popularidade da Liga Árabe. O país, no entanto, continuava sob tutela da França e o ambiente era aparentemente calmo.

Um dia, durante uma visita ao mercado da cidade, Jane ficou fascinada com uma vendedora de uma barraca de grãos - Cherifa. Ao contrário de Paul, que conseguia namoradinhos árabes em cada esquina, Jane logo descobriu a tarefa dificílima de penetrar no mundo das mulheres árabes, sempre escondidas atrás dos véus e dos muros dos haréns. Mas a americana gostava de aventuras e era persistente. Logo ficou amiga de Cherifa, mas percebeu que não podia convidá-la para ir ao seu quarto de hotel e nem seria convidada para conhecer a casa de Cherifa em Medina. Tudo isso porque, sendo muçulmana, Cherifa precisava da permissão de um homem de sua família para sair de casa ou para convidar qualquer um a entrar em sua própria casa. Convidar Jane, então, era uma heresia! Primeiro, tratava-se de uma "inimiga" européia. Não adiantava Jane explicar que era americana - para eles, ocidental era tudo a mesma coisa. Em segundo lugar, Jane era uma "nazarena", como os marroquinos costumavam chamar os cristãos em geral. Pouco facilitava Jane dizer que era judia - ela era muito diferente dos judeus de Tânger, pobres e de pele escura, que moravam em Medina (cidade velha) e com os quais os marroquinos tinham familiaridade. Lembrem-se: o estado de Israel ainda não existia e judeus e árabes não eram inimigos declarados ainda. Mesmo diante de tantos problemas e mal-entendidos, o amor e a atração falaram mais alto: Jane e Cherifa começaram a namorar. Pensando em tornar tudo mais fácil, Jane saiu do hotel e alugou uma casa em Medina para que Cherifa pudesse freqüentá-la. Mesmo assim as coisas se complicaram. Cherifa só aparecia quando Jane lhe dava algum presente. A escritora americana logo entrou em crise com a situação: ora Charifa lhe pedia uma raquete de tênis, ora um par de sapatos e chegou até a pedir um táxi para trabalhar como motorista em Tânger! Não demorou muito para os amigos americanos dos Bowles desconfiarem da marroquina: ela era uma interesseira que não dava a mínima para o amor de Jane. Seria verdade? Ou apenas outro mal-entendido? O que os amigos americanos não percebiam é que os familiares de Cherifa também a pressionavam do outro lado: Cherifa precisava tirar algum lucro material da relação. Segundo o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, o marido deve sustentar a sua mulher e, portanto, Jane deveria sustentar Cherifa! Não que os familiares de Cherifa aprovassem ou reconhecessem a verdadeira natureza de sua relação com Jane mas, se a marroquina dedicava-se tanto à americana, a ponto de praticamente morar na mesma casa, era natural que existisse uma compensação financeira. Mas não adiantava Jane explicar. Os amigos dos Bowles e os familiares de Cherifa achavam aquela relação muito estranha. A situação chegou ao ápice dez anos depois quando Jane Bowles sofreu um sério derrame que deixou sua capacidade de ler e escrever comprometida. Entre a comunidade americana em Tânger o boato era que Cherifa havia envenenado a sua amante - até mesmo Paul partilhava dessa suspeita. O cerco ao redor de Cherifa aumentou quando um criado achou pequenos patuás espalhados pela casa. Cherifa disse que sim, fora ela quem fizera os patuás, mas eram apenas uma mandinga para "pegar amor". Ninguém acreditou. Americanos que sempre ridicularizaram os hábitos e costumes primitivos dos marroquinos agora acreditavam na magia negra supostamente perpetrada por Cherifa. Eles a acusavam de ter tentado matar Jane e se esqueciam que a escritora americana era uma hipertensa que não tomava remédios, já sofrera alguns ataques e que bebia uma garrafa de gim por dia, acompanhada de 3 maços de cigarros. Recuperada após vários tratamentos na América e Europa (mas ainda com afasia) Jane voltou a Tânger para morar com Cherifa. Coincidentemente, seu regresso foi logo após o Marrocos ter declarado sua independência, libertando-se da tutela européia depois de coroar o rei Mohammad V. Desta vez Jane encontrou uma Cherifa de cabeça erguida, talvez mais orgulhosa pela autonomia de seu país. Jane percebeu esta mudança quando, durante um pileque num bar, começou a distribuir dinheiro e as roupas que usava para quem passasse a sua frente. Cherifa que, como sempre, estava ao seu lado não aceitou nem um tostão. Desta vez recusou-se a receber qualquer coisa de Jane. Mas nunca a abandonou. Cuidou da amiga/amante americana enquanto Paul, o marido de Jane, viajava pelo mundo, para outros países mais exóticos, mais distantes e mais ao oriente - mais para lá ainda de Marrakesh. Jane Bowles morreu em 1973, sozinha, numa clínica em Málaga, Espanha, depois de ser internada pelo marido. Paul morreu há poucos anos atrás. Quanto a Cherifa, ninguém sabe se está viva ou morta.

bonny e mary read

a maioria dos historiadores acha que ela nasceu em Kinsale, na Irlanda em 1697 e como Anne Cormac. Filha ilegítima do advogado William Cormac e de sua empregada, Mary Brennan. A esposa de William fez de seu adultério um ato público, assim depois de perder sua reputação, William com sua nova esposa e filha recém-nascida decidiu deixar a Irlanda e iniciar sua carreira de advogado novamente. Eles compraram uma plantação no mundo novo da pré-independência e assim Anne foi criada até os treze anos nos EUA, na Carolina do Sul. Embora fosse filha de um rico advogado e proprietário de plantações, seu cabelo vermelho era cortado curto, sua cara era suja, e seus hábitos eram brutos. Conforme notas, Anne "cresceu amarrada, e era menima exaltada, de um temperamento feroz e corajoso" que mais de uma vez lhe deixou em situação complicada e dolorosa. Depois de perder sua mãe quando ainda era adolescente, Anne foi tomada conta pela empregada doméstica. Existem muitas estórias sobre seus 10 anos de idade; alguns dizem que Anne assassinou a empregada com uma faca, e existem outras que dizem sobre um homem jovem que ela colocou no hospital por diversas semanas, depois de sua tentativa fracassada de agressão sexual contra Anne. Mas aparte dos ataques ocasionais de seu temperamento era uma filha boa e obediente. Anne Bonny era uma mulher forte e independente, e que estava à frente do seu tempo, quando ainda era época que o homem tomava todas as decisões importantes, e época em que as mulheres não tinham direitos. Anos depois Anne era vista freqüentando os tavernas do porto. Seu pai deserdou-a quando ela fugiu com o amante James Bonny; por vingança, ela queimou sua plantação, em seguida fugiu para uma enseada controlada por piratas. Num curto espaço de tempo, ela descartou seu marido, e foi viver com o pirata Capitão Jennings e sua amante Meg. Aconselhada a conseguir alguma proteção masculina, transformou-se na amante de Chidley Bayard, o homem mais rico da ilha. Mas finalmente, ela abandonou Bayard pelo pirata John "Calico Jack" Rackham. Outros amigos homens de Anne foram gays, como Pierre Bouspeut ou chamado simplesmente de "Pierre, o pirata homossexual", que trajava vestido e era o designer de roupas finas de veludo e de seda.

Mary Read - usava o pseudônimo de "Mark" Read. A mãe de Mary há muito tempo atrás, na Inglaterra, vestia sua filha como um menino e fingindo assim que era seu filho a fim assegurar a herança dos avós paternos de Mary, que era reservado para um filho do sexo masculino. Mary veio eventualmente preferir tanto seu papel masculino que sua mãe deserdou-a. Ela então tornou-se aprendiz de sapateiro, e depois fugiu para juntar-se ao exército como um soldado. Ela casou com um soldado mas após três anos, seu marido morreu e assim ela novamente voltou a vestir roupas de homem e passou a assinar como um mercador holandês chamado Mark Read. Quando o navio em que estava foi capturado por piratas ingleses, ela decidiu juntar-se a eles.

No porto de New Providence, Mary Read encontrou-se com Anne Bonny e tornaram-se rapidamente amigas. Mas, o marido de Anne Bonny, James, reapareceu reclamando sua esposa, isto é, sua propriedade. Ele a sequestrou e trouxe-a amarrada e nua diante do governador, e este sugeriu o "divórcio pelo leilão", mas Anne recusou ser, como ela mesma disse, “comprada e vendida como um porco ou o gado” e nenhum comprador ousou reivindicar tal "hellcat" (uma senhora com temperamento feroz). Diante disso o governador foi forçado a libertá-la na condição de que ela retornasse ao seu senhor legal, mas James, que somente queria o dinheiro, fugiu com medo da tempestade que tinha causado. Anne e Mary, juntas, prepararam assim dentro da corveta uma perseguição a James; ele escapou mas elas queimaram seu negócios. No devido tempo, o grupo pirata de Anne foi refeito, com Anne e “Mark” constantemente juntas a bordo do navio. Esta intimidade despertou o ciúme de Calico Jack, que ameaçou cortar a garganta de “Mark”, foi quando descobriu ‘Mark” estendida na cama com Anne, nua e visivelmente uma mulher. Apesar desta suposta descoberta do verdadeiro sexo de "Mark", Anne e Mary (a quem parou de chamar a si mesma de "Mark"), ficaram inseparáveis, e ambas alternavam-se em vestir roupas masculinas e femininas. No devido tempo pegaram o comando de outro navio, e os navios-de-guerra foram enviados para capturar "aquelas mulheres infames." Elas abandonaram todo cuidado e invadiram numerosos navios. E uma das vítimas de seus atos de pirataria foi a rainha real. Finalmente Anne e Mary foram capturadas pelo capitão Barnet. No calor desta batalha final seu grupo as abandonou recusando-se a lutar. Elas e seu grupo pirata foram trazidos à julgamento na Jamaica, e culpadas por pirataria em 28 de novembro de 1720, e sentenciadas à forca. Anne e Mary rapidamente "defenderam suas barrigas" apesar de nenhuma das duas estarem realmente grávidas, e foram perdoadas. Este era um pedido comum entre mulheres sentenciadas à morte, a ponto que nenhuma corte enforcaria a vida de um inocente embora estivesse por nascer. Anne Bonny visitou Calico antes que fosse enforcado, e dito "estou triste por ver você nessa situação, mas se você tivesse lutado como um homem não teria que agora morrer como um cão." Mary morreu de uma febre contraída na prisão, e Anne apenas desapareceu. Uma história improvável é que casou-se e retornou a Charleston. Uma história ainda mais improvável é que entrou em um convento de freiras. A literatura pirata não é anotada com exatidão, e nunca houve toda uma completa pesquisa sobre as vidas de Anne Bonny e de Mary Read.

moedas cunhadas em homenagem a Anne Bonny e Mary Read

Nota: A história acima parece ser a mais exata e foi recolhida dos documentos mais originais da época. A evidência de sua homossexualidade não é assim bem definido, e a maioria era bissexual, assim o termo "lésbicas" não é estritamente exato. Alguns historiadores (homens) nos fizeram acreditar que Anne tinha rasgado as roupas de Mary, e ela mesma tinha descoberto o verdadeiro sexo de “Mark”. Isto é altamente improvável. As duas mulheres já tinham sido íntimas tempos atrás e por demasiado tempo e compartilharam de um estilo de vida tão difícil que era impossível não estarem inteiramente familiarizadas uma com o sexo da outra. E mesmo Mary se fingindo ser um homem, certamente Pierre (o amigo gay de Anne) teria descoberto a verdade há muito tempo atrás. O fato de retirar do episódio as partes consideradas incedentes (bowdlerization) e as tentativas de "explicar isso de outro modo" são típicos de como este par ousado é tratado; Anne Bonny freqüentemente aparece na literatura para crianças e em algumas caixas de cereais do tipo Shredded Wheat, onde ela é convencionalmente "normalizada" ao ser retratada como meramente uma senhora de um capitão pirata, ao invés da líder que ela realmente foi. O episódio em que Calico Jack descobre as duas juntas na cabine, na cama e sem roupas, tornou-se mais preocupante para os historiadores heterosexuais que deviam ter visto algo nisso. Sobretudo, é ímpar que as únicas duas piratas mulheres nos registros da históricos deviam ter terminado juntas, e nós não podemos levemente admitir seu amor óbvio um pela outra. Mas é impossível ignorar totalmente o ambiente lésbico de seu relacionamento e devemos levar em consideração o fato que agiram juntas como um casal e obviamente amarem uma a outra; assim a evidência sugere que devem ser relevantes para qualquer história de experiência lésbica.

colette e missy

O beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge
Um dos maiores ícones literários do país das belas letras, a escritora francesa Colette era também sinônimo de irreverência, escândalo e liberação femininos. Nascida em 28 de janeiro de 1873, Colette começou a escrever sob o chicotinho de seu marido, Henri Gauthier-Villars (conhecido como Willy), que a trancava num quarto até que completasse algumas dezenas de páginas. Não pensem que o marido fazia isto para o bem da esposa: Willy a explorava, mantendo Colette no anonimato, assinando ele próprio os livros da escritora e embolsando seus direitos autorais. Direitos, aliás, polpudos, pois os romances da série “Claudine” se tornaram sucesso absoluto no país. Um dia, Colette não agüentou mais e revelou ser a verdadeira autora de “Claudine na Escola”, “Claudine em Paris” e os outros que se seguiram. Aproveitando o embalo e o gosto doce do reconhecimento, pediu o divórcio e finalmente se libertou do jugo do marido-escroque (ou começou a se libertar, já que o processo do divórcio e da retomada de seus direitos autorais foi bem demorado e complicado). Desejando novas experiências a partir da liberdade inédita, Colette resolveu aventurar-se no teatro, onde conheceu a baronesa de Morny, que patrocinava eventos no Moulin Rouge. A baronesa, apelidada de Missy, logo se apaixonou por Colette e foi plenamente correspondida. A escritora, sedenta de aventuras e entusiasmada pela nova paixão, propôs à baronesa-amante que atuassem juntas, como atrizes, numa peça de sua autoria.

Missy topou, mas, preocupada com possíveis reações adversas de seus pares (a nobreza francesa não admitia que um de seus membros atuasse em cabarés), resolveu atuar disfarçada, sob pseudônimo de Yissim e fazendo um papel masculino (foto). Assim, em meio a um tórrido romance lésbico, nasceu a peça “Revê d´Égypte” (Sonho do Egito), um dos maiores escândalos do Moulin Rouge. Não se sabe muito bem quem revelou, antecipadamente, a identidade secreta de Yissim. O fato é que, na noite de estréia, vários membros da nobreza se amontoavam nas primeiras fileiras para detonar e vaiar Missy e Colette. Antes mesmo que abrissem as cortinas, já se ouviam apupos da platéia que gritava “fora, sapatões!”, enquanto atiravam ao palco cascas de laranja, almofadas dos assentos, moedas velhas e até dentes de alho. Apesar da gritaria, as duas iniciaram a performance, procurando desviar dos objetos que eram atirados. Colette fazia o papel de uma múmia que se apaixonava pelo seu descobridor, o arqueólogo interpretado por Missy. Quando então o arqueólogo tomou em seus braços a múmia seminua e deu-lhe um prolongado beijo na boca, o Moulin Rouge veio abaixo. No dia seguinte, os parentes da baronesa Missy exigiram que a polícia local proibisse o espetáculo. No entanto, a peça já havia atraído um público considerável, que fazia filas para a segunda apresentação. Como o administrador do teatro não queria desperdiçar um sucesso promissor, a produção tentou encontrar uma saída que não significasse o fim das exibições. Assim, para acalmar os ânimos dos parentes da baronesa, decidiu-se que Yissim (Missy) seria substituída pelo ator Georges Wague. Entrevistada logo após esta segunda apresentação, Colette lamentou “a covardia das pessoas que me insultaram”. Missy, mais calma, pediu que Colette “esquecesse aquelas pessoas”, ao que a escritora-atriz respondeu: “sim, contanto que eles nos deixem em paz”. Parece que seu pedido foi atendido, em parte: o espetáculo continuou em cartaz e, mesmo sem atuar, Missy permaneceu trabalhando nos bastidores. Depois de Paris, a peça viajou para outras cidades francesas. Colette e Missy continuaram enamoradas por muito tempo, provocando a claque conservadora, embaladas e inspiradas pelo beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge naquele janeiro de 1907.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Gertrude Stein e Alice b. Toklas

viveram 38 anos juntas e formaram um dos mais distintos casais do mundo das artes no início do século XX. Fervidíssimas, as americanas viveram durante muitos anos em Paris, em um momento de muita luz naquela cidade.

De Gertrude Stein (esquerda) é comum dizer-se que "descobriu" Picasso e que inventou a expressão "geração perdida", aplicada a Hemingway e Fitzgerald. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época. Gertrude Stein nasceu em 1874 em Allegheny, Pennsylvania, Estados Unidos e passou a maior parte da infância entre Viena e a Califórnia. Tinha oito anos quando começou a escrever, uma atividade que rapidamente se transformou em obsessão, tal como a leitura. As suas preferências iam para Shakespeare e para livros de História Natural. Na escola mostrou imediatamente o fascínio que sentia pela estrutura das frases. Em 1903, instalou-se na França com o irmão, Leo, depois de ter passado por um curso de medicina na Universidade Johns Hopkins e de ter experimentado o estudo da psicologia. Gertrude e Leo, munidos de uma generosa mesada facultada pelo irmão mais velho depois da morte do pai, tornaram-se rapidamente o centro da atividade cultural, em Paris. Leo era pintor e crítico de arte. Em Paris desenvolveram uma relação estreita com Picasso e, simultaneamente, com o seu grande rival Matisse. Braque, Van Dongen, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Max Jacob, André Salmon, Erik Satie, Jean Cocteau, Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scot Fitzgerald também faziam parte do círculo de amigos íntimos. Fisicamente, Gertrude era a típica matrona germano-americana, de corpo e traços fortes, uma figura que nada tinha de feminino. Mas o seu humor, o seu sentido de auto-estima e o seu espírito finamente irônico, aliados ao fato de ser extremamente mundana e muito "snob", faziam dela uma personagem muito atraente que dava ótimas festas e entretinha os seus amigos e convidados com ditos espirituosos e inteligentes. Foi uma escritora que inovou em literatura e uma importante mentora da arte moderna. Diz-se que ela fez com as palavras o que Picasso fez com as tintas. Gertrude Stein tem sido utilizada como ícone de grupos homossexuais. Um dos seu primeiros livros "Q.E.D." (Quod Erat Demonstrandum) ou "Things As They Are", que ela escondeu e fingiu ter esquecido durante anos, contava a história de um triângulo amoroso formado por três mulheres, uma das quais era uma imagem decalcada de si própria, no tempo em que estudava medicina. O fato de mais tarde, em Paris, fazer questão de demonstrar abertamente que desafiava as convenções, contribuiu para uma admiração por parte das comunidades homossexuais. A sua qualidade de judia tão pouco a marcou com sinais de exclusão. Em 1908 declarou seu amor a Alice, uma amiga dos seus tempos de S. Francisco, durante uma caminhada pelas montanhas: queria se casar e ela seria o marido e Alice, a esposa. Depois, Gertrude descreveu seu amor por Alice: "Admiro meu neném. Admiro sua beleza admiro sua perfeição admiro sua pureza, admiro sua ternura. Admiro seu charme admiro sua vaidade... Admiro sua dedicação admiro seu humor admiro sua inteligência admiro sua rapidez admiro seu brilho admiro sua doçura admiro sua delicadeza, admiro sua generosidade, admiro sua vaca". Só para constar, vaca era a palavra de Stein para orgasmo. Foi uma união muito feliz que durou todo o resto da vida da escritora e que foi amplamente documentada em "Autobiografia de Alice B. Toklas", escrita pela própria Gertrude Stein, aos cinquenta e oito anos, em que descreve os detalhes mais íntimos da vida de todos os dias, com as festas, os jantares, as exposições, os amores, ódios, zangas e reconciliações de amigos, inimigos ou simples conhecidos. Quando começaram a viver juntas, o momento foi especialmente dramático para Gertrude, porque se tinha separado definitivamente de Leo, com quem se mantinha em estado de guerra declarada por ele não apreciar os seus escritos. Zangaram-se e nunca mais se falaram. Durante a Primeira Grande Guerra, tanto ela como Alice fizeram questão de ficar em Paris. Compraram um Ford em muito mau estado, a que chamaram "Auntie" e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha e transportar feridos para a província. Durante a Segunda Grande Guerra trabalharam para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazis nunca descobrissem que eram judias. A forte personalidade de Gertrude marcou indestrutivelmente todos os que com ela privaram. Adorava a escrita, acima de tudo e seguiam-se depois, na ordem dos seus afetos: Alice e os seus dois cães, Pépé e Basket. Alice B. Toklas. Não, Alice não era escritora. Tanto que quem escreveu sua autobiografia, sim, isso mesmo, sua própria biografia, foi a sempre inusitada companheira, Gertrude. Como não podia mais escrever sua autobiografia, Alice - secretária, governanta e amante da escritora durante 38 anos, inventou um jeito - no mínimo mais saboroso - de contar sua vida na França, um livro de culinária: “O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas”. Com uma diferença: suas receitas recolhidas das fontes mais disparatadas, inclusive de amigos ilustres, foram testadas e aprovadas com água na boca por Picasso e outras celebridades do mundo intelectual que freqüentavam a casa das duas americanas mais badaladas de Paris nas primeiras décadas do século XX. Alice B. Toklas fez mais que um livro de cozinha, fez um livro sobre a cultura gastronômica e os prazeres da boa mesa, salpicado de deliciosas reminiscências da França durante a guerra e a ocupação nazista. Mas esse livro aparentemente sobre culinária se revela um belo álbum de memórias, onde entre ervas de cheiro e ingredientes mais raros, ela vai revelando um panorama encantador sobre o que se convencionou denominar "vanguardas européias". Entre grandes guerras, entre grandes homens e mulheres, descobrimos uma singela sopa de louro e a escandalosa receita de biscoitos de haxixe, que causou furor no lançamento do volume. Descobrimos também, que amor se faz com arte e renúncia, com coisas aparentemente simples como picar uma cebola ou arrumar uma mesa. Amor se faz com a parte de mim que cede a você e a parte de você que cede a mim. É isso. O resto é vida, sentimento, puro devaneio compartilhado.

Nathalie e Rosa, 40 anos juntas

Nathalie e Rosa, 40 anos juntas Marie-Rosalie Bonheur (na foto a que está em pé) nasceu na França no ano de 1822. Logo que começou a demonstrar talento para a pintura, seu pai, também pintor, resolveu ensiná-la a arte do traço, das luzes e das cores, já que não era permitido às mulheres freqüentarem uma escola de arte, mais tarde Rosa se vingou e fundou a ‘Academia de Artes para Jovens Garotas’. Foi o pai também que sugeriu que a filha pintasse sobre um único tema e que seria o principal em sua obra: o reino animal.

Querendo aprimorar a sua técnica, Rosa começou a estudar a anatomia dos animais visitando açougues onde podia observar os bichos por dentro. Embora sua pintura fosse realista e bastante conservadora, Rosa era completamente anti-convencional. Para que pudesse visitar os açougues e matadouros sem que fosse incomodada, começou a vestir-se de homem e obteve, com exclusividade, um certificado (veja aqui) da polícia de Paris autorizando-a a se travestir, o certificado era necessário pois fazer cross-dressing era crime naquela época. Além das roupas masculinas, Rosa apreciava charutos, fumava cigarros em público, usava o cabelo bem curto e ainda ousava cavalgar de atravessado, coisa que nenhuma mulher de boa família se atrevia a fazer. A grande companheira na vida de Rosa foi Nathalie Micas, amiga de infância que depois virou sua esposa. Rosa conheceu Nathalie em 1836, quando tinha 14 anos de idade e só se separaram quando Nathalie morreu, em 1889. Nathalie era uma inventora de fundo de quintal e chegou a patentear um freio para locomotivas. Mas no dia-a-dia Nathalie acabava trabalhando junto de Rosa, ajudando a pintora em sua carreira e também na manutenção do curral particular da casa de campo delas, em Fontainebleu, isso porque Rosa não podia mais manter seus modelos, as ovelhas, os cavalos e outros animais, trancafiados no sexto andar de seu apartamento em Paris. Na verdade Nathalie era a mulher por trás da grande artista. Rosa escreveu que Nathalie era sua bem-amada: "ela era minha igual em muitas coisas e até superior a mim em outras". Rosa reconhecia a importância de Nathalie para o sucesso de sua carreira de artista: "Ela me protegia da lama que era atirada em mim, impedindo que eu me sujasse". E graças à Nathalie, Rosa tornou-se uma das mais famosas pintoras francesas de todos os tempos.

Depois que Nathalie morreu, em 1889, Rosa entrou numa depressão terrível. Um dia, porém, recebeu a visita de uma jovem artista que queria pintar um retrato seu. Rosa apaixonou-se pela jovem pintora americana, chamada Anna Elizabeth Klumpke, e convidou-a para morar junto dela em Fontainebleu. Uma curiosidade: Anna era fascinada por Rosa desde pequena quando ganhou de presente uma boneca Rosa Bonheur, a pintora era tão famosa que fabricaram uma série de bonecas em sua homenagem. As duas artistas viveram juntas por 10 anos, até a morte de Rosa em 1899. E para provar que o amor é lindo e eterno, as cinzas de Rosa, Nathalie e Anna foram enterradas juntas e podem ser visitadas no cemitério ‘Pére Lachaise’, em Paris.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

susan sontag e annie leibovitz

Susan Sontag e Annie Leibovitz devotaram suas vidas à paixão pelos livros, paixão pela beleza, além da paixão de uma pela outra. Mantiveram uma relação intensa, uma voz para um olhar. As duas falaram em nome das mulheres. Discretamente, sem alarde. Annie Leibovitz, uma das expoentes da cultura pop americana na segunda metade do século passado, uma fotógrafa perfeccionista, cada fotografia é preparada detalhadamente por uma equipa de cerca de 50 pessoas. Uma hora do seu trabalho custa milhares de dólares. É dela, por exemplo, a célebre fotografia do beatle John Lennon, nu, enroscado em Yoko Ono, momentos antes de ser assassinado por Mark Chapman em 8 de dezembro de 1980. A fotografia que foi capa da ‘Rolling Stone’ e ficou na história como uma das imagens mais marcantes de sempre. A fotografia até nem correu como planejado. Yoko Ono recusou-se a tirar a roupa como Annie Leibovitz lhe tinha pedido. A fotógrafa ficou um pouco desiludida, mesmo assim continuou a sessão. John Lennon aceitou a indicação e despiu-se. Yoko ficou vestida e o ex-Beatle deitou-se a seu lado nu, em posição fetal. O ensaio de Demi Moore grávida publicado na revista ‘Vanity Fair’ também é de sua autoria. Essas imagens, a de Lennon e de Demi Moore, foram eleitas pela ‘Sociedade Americana de Editores de Revista’ como as duas melhores imagens de revista nos últimos 40 anos. Esses e outros momentos, de uma espantosa e chocante beleza, captados com um olhar ímpar estão impressos no recém-lançado livro ‘A Photographer’s Life’ (1990 – 2005). Um conjunto de obras de quem conta toda uma vida num clique. Mais do que revelar a intimidade de grandes personalidades, a edição mostra a vida pessoal de Annie Leibovitz traduzida em fotos de sua família, de sua companheira, a escritora Susan Sontag, e dela mesma. O livro, aliás, é uma homenagem da autora à Susan Sontag que morreu de câncer em 2004. Annie fotografou toda a agonia de Sontag em seus momentos finais consumida pelo câncer. Escritora, ensaísta e ativista norte-americana e, como ela mesma dizia, 'fanática pela seriedade’, cuja mente voraz e prosa provocante a tornaram uma das mais importantes intelectuais dos últimos 50 anos. De destaque internacional e enorme irreverência, Susan Sontag foi distinguida com numerosos prêmios literários. É autora do ensaio sobre estética homossexual "Notes on Camp" (1964), que lançou definitivamente a sua carreira literária. Filha de um negociante de peles, ela nasceu como Susan Rosenblatt, em 1933, em Nova York, a sua cidade de sempre. A mãe era alcoólatra; o pai morreu quando ela tinha cinco anos. Mais tarde, sua mãe se casou com um oficial do exército, o capitão Nathan Sontag. Susan Sontag lembrava sua infância como "uma grande sentença de prisão". Mas nem só de literatura viveu Sontag. Os seus múltiplos interesses (jornalismo, filosofia, cinema, fotografia) valeram-lhe o destaque como uma das vozes mais incômodas entre os intelectuais do seu país, tendo muitas vezes proferido afirmações polêmicas. Em 1968, é enviada como correspondente para o Vietnã, um conflito que a marcará profundamente e que reforçará a suas convicções pacifistas. Vinte e cinco anos depois volta a outro cenário de guerra, desta vez na Bósnia Herzegovina para alertar o mundo da escalada de horror vivida na Iugoslávia. Feminista convicta, Sontag foi uma incansável ativista dos direitos humanos. Apesar de já travar a luta contra a doença, não deixou de apresentar o seu protesto a propósito do atentado ao World Trade Center, responsabilizando a atuação das administrações americanas pelo sucedido. Em 2003 insurgiu-se contra a guerra no Iraque, em rota de colisão com o Presidente George W. Bush. Apesar de ter revelado sua bissexualidade em 1995, Sontag não alardeava (embora não negasse) suas ligações com mulheres. E ela namorou algumas das figuras mais fascinantes da vida cultural americana: por sete anos foi parceira da dramaturga Maria Irene Fornes e namorou a coreógrafa Lucinda Childs. Nos últimos anos de sua vida, viveu intensamente com Annie Leibovitz, com quem dividia um conjugado de luxo em Nova York. Susan, deixou seu recado pouco antes de morrer sobre a força da fotografia em ‘Diante da dor dos outros’. Neste livro Sontag fala do impacto que as imagens da 1ª Guerra Mundial trouxeram para os leitores de jornal no começo do século XX que não conseguiam imaginar o que era o horror nos campos de batalha. A morte ao vivo pela primeira vez era fotografada quase simultaneamente às informações que chegavam ao público.

Bettine Von Anim e Caroline Gunderode

Elisabeth Magdalena Catharina Ludovica Brentano, conhecida como Bettine von Arnim, foi uma escritora alemã, importante representante do romantismo. Em 1805, esta jovem escritora alemã correspondia-se com Caroline Gunderode, nascida como Maximiliane de Friederike Caroline Louise Günderrode, poetisa, e uma das mais enigmáticas figuras do romantismo alemão. Bettine escrevia a Caroline, uma mulher com mais 8 ou 10 anos do que ela: ‘Se não existisses, o que seria o mundo para mim? Sou como morta se não me pedires que me levante e viva continuamente contigo. Tenho a certeza que a minha vida acorda apenas quando me chamas e que a minha vida morrerá se não puder continuar a crescer em ti. Sim, sei, a minha vida é insegura; sem o teu amor, no qual está plantada, a minha vida nunca florirá.’ Caroline correspondia à sua paixão e necessidade, declarando: 'Tu és o meu raio de sol que me aquece, enquanto que em todo o outro lado a geada cai sobre mim.' A correspondência volumosa entre estas duas mulheres sugere um caso amoroso de grande paixão, no qual elas ofereceram uma à outra não apenas um afeto intenso, mas também apoio emocional e estímulo intelectual. Como muitas outras mulheres do seu tempo, noutros países, Bettine e Caroline viam-se a si próprias como "amigas românticas". Apesar da grandeza do seu amor, Bettine e Caroline não viveram juntas. Poucas eram as mulheres que o faziam nos princípios do século XIX, quando não havia praticamente oportunidade de auto-suficiência econômica para as mulheres de classe média e alta. Esperava-se destas que casassem ou que entrassem para um convento ou outro retiro feminino semelhante. Caroline Gunderode, filha de uma viúva com vários outros filhos, escolheu este último caminho, tornando-se cônega da sua ordem religiosa. As duas mulheres poderiam, é claro, ter fugido juntas como tinham feito na geração anterior na Inglaterra duas lésbicas, Sarah Ponsonby e Eleanor Butler, as ‘Senhoras de Llangollen’, mas talvez não tenham podido, ou não tenham querido arriscar a fúria de amigos e família que as ‘Senhoras de Llangollen’ tiveram de suportar. Se Bettine e Caroline fossem das classes mais baixas, uma delas poderia ter envergado roupas de homem, e obtido trabalho manual sob esse disfarce, e as duas poderiam ter passado por marido e mulher. Mas mudar de classe, no início do século 19, era ainda mais difícil do que mudar de gênero. Além disso, Bettine e Caroline poderiam ter tido conhecimento do caso de uma outra alemã, Catarina Margarethe Linck, queimada na fogueira em 1721 por ter tentado passar por homem e por ter casado com outra mulher. Mas apesar de não terem passado a vida juntas, a sua correspondência indica que, como muitas outras "amigas românticas" da época, foram amantes em todos os sentidos exceto talvez o carnal, é muito pouco provável que tivessem posto essa experiência por escrito, mesmo que a tivessem tido. Para nós, já no século XXI, poderá parecer incrível que duas mulheres possam ter estado tão apaixonadas sem nunca terem referido a este amor enquanto lésbicas, ou o seu receio de serem descobertas, ou o significado político do seu envolvimento uma com a outra. Contudo, tal falta de percepção era possível antes do advento dos sexólogos em finais do século XIX, quando informaram o mundo da existência de enormes quantidades de mulheres que amavam outras mulheres, de maneiras que ultrapassavam o afeto entre irmãs e que semelhante amor era mórbido.

Natalie barney e Romaine brooks

natalie barneyrenée vivien Natalie Clifford Barney no século XX, com 20 anos deixou a América e instalou-se em Paris. A cidade de Washington era provinciana demais para abrigar a jovem herdeira que pregava o amor livre, Paris, a cidade-luz, parecia ser o paraíso. Natalie talvez tenha sido a primeira mulher a alardear publicamente sua homossexualidade e o fazia com muito orgulho. Ela e a amante a poeta Renée Vivien aproveitaram a onda migratória de artistas americanos para a Europa e estabeleceram moradia em Paris onde sonhavam recriar uma ‘Lesbos’ em pleno começo do século XX. Embora fosse escritora, Natalie era mais conhecida por suas atitudes nada convencionais e pelas festas que dava toda a sexta-feira à tarde, no jardim de sua casa, cujos salões eram frequentados pela nata literária da época. As festas eram exclusivamente para mulheres, onde eram celebrados no ‘Templo da Amizade’, em estilo grego, pequenos rituais sáficos. Sarah Bernhardt e Isadora Duncan apareciam por lá para uma encenação, Greta Garbo deu as caras uma vez, levada por sua amante Mercedes de Acosta e a escritora francesa Collete adorava ir às festas sem seu marido. Certa vez, Collete escreveu: ‘Natalie querida, meu marido beija suas mãos e eu, o resto!’. Natalie era muito sedutora e aos 50 anos exercia um enorme fascínio sobre as outras mulheres. Mesmo a sisuda Gertrude Stein deixou-se cativar pela sua rival anfitriã, se por um lado as festas de Gertrude eram modernistas, os de Natalie eram um festival ‘Belle Épóque’. Como franca adepta do amor livre, Natalie colecionou amantes durante toda a sua vida, todas mulheres: Renée Vivién, Djuna Barnes, Dolly Wilde (sobrinha de Oscar Wilde) e Collete. Mas foi com a pintora Romaine Brooks que teve o caso mais duradouro. Ficaram juntas por 50 anos. Natalie escreveu alguns poucos livros, a maioria em francês. Uma vez escreveu o que deveria ser seu epitáfio: ‘Ela era amiga dos homens e amante das mulheres, o que para pessoas cheias de ardor e energia, é melhor que o contrário’. romaine brooks Romaine Brooks foi amante de mulheres, adorava vestir-se com roupas masculinas, percorria as ruas de Paris e Londres com sua Bugatti conversível e adorava pintar retratos de suas amigas travestidas. Só pintava em tons de cinza, Brooks odiava cores fortes. Até mesmo seu apartamento era decorado apenas com as cores branco, preto e cinza e suas roupas e pinturas obedeciam à mesma palheta, acrescida de marrom e areia. Esta preferência de Brooks por cores soturnas e neutras talvez se devesse à sua infância extremamente infeliz. Apesar de ter nascido no seio de uma família americana abastada, a pintora foi vítima de toda a sorte de abusos. O pai alcoólatra abandonou mulher, um filho deficiente mental e duas filhas pequenas, uma delas a recém-nascida Romaine. Ella Godard, sua mãe, era louca. Com o tempo, foi nutrindo uma obsessão doentia pelo filho deficiente, passou a achar que o menino era santo e batizou-o de Henry St Mar e caçoava de Romaine por ela não ser tão inteligente quanto o irmão. Depois, passou a vestir as filhas com roupas que o menino havia usado quando tinha a idade delas, querendo torná-las como ele. O garoto St Mar, no entanto, amava Romaine, era correspondido e a cumplicidade dos dois despertou o ciúme de Ella, que passou a odiar a filha. Cruel, Ella deixou Romaine passar uns dias na casa da lavadeira, num cortiço nos arredores de Nova York, mas só voltou para pegá-la anos depois. Em casa, Romaine sofria humilhações e tinhas seus desenhos rasgados pela mãe, egoísta e invejosa de seu talento artístico. Adolescente, Brooks foi enviada para um convento na Itália, de onde fugiu logo que completou 18 anos para viver, incógnita, nas ruas de Paris, onde, um pouco antes da virada do século 20, ela finalmente decidiu se dedicar profissionalmente à pintura. Sem dinheiro, pois havia interrompido a comunicação com a família, passou a fazer uns bicos posando como modelo para aulas de desenho. Assim, ficou íntima de um núcleo de artistas e acabou desenvolvendo a pintura como sua verdadeira vocação. Logo depois, com a morte da mãe, Romaine herdou uma fortuna que lhe permitiu viver apenas para sua arte. Em 1915, Brooks, conheceu o grande amor da sua vida, a escritora Natalie Barney, a lésbica mais famosa da cidade, conhecida como a Safo de Paris. As duas, no entanto, eram muito diferentes, Natalie adorava festas, roupas claras, relacionamentos abertos, era otimista e amava estar cercada por muita gente; Romaine preferia o silêncio, roupas escuras, relacionamentos exclusivos, era pessimista e sofria de misantropia crônica. Mas, talvez por terem se encontrado numa fase madura da vida, as duas com quarenta e poucos quando se apaixonaram, souberam administrar essas diferenças e permaneceram juntas por quase 50 anos. Uma das táticas usadas por Brooks para conservar em bons termos sua relação com Natalie envolvia respeito mútuo e distância. Sabendo que a amante era uma namoradeira incorrigível, e consciente de sua própria preferência pela solidão, Brooks se afastava de tempos em tempos e deixava Natalie livre para suas outras conquistas amorosas. Quando as paixões de Natalie arrefeciam, Books voltava para tomar seu lugar de direito e Natalie ajudava Brooks a se promover, organizando exposições, negociando os quadros de Romaine com museus e intermediando pedidos de socialites que desejavam ter um retrato pintado por sua namorada. Lésbica e cross-dresser, Brooks pintou vários retratos de mulheres vestidas como homens, o que na época foi bastante ousado. Em seus retratos monocromáticos, Romaine Brooks confundiu propositalmente os limites entre os gêneros masculinos e femininos, redenção de sua infância atormentada